sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mãos

Trazia-te pela mão, como quem se orgulha de partilhar a felicidade no brilho de outros olhos. Dobrava contigo as esquinas da cidade na esperança de algum lugar onde pudéssemos descansar as mãos, ou apenas uma sombra onde te pudesse esconder. Tinha medo de te perder para outros desafios. Talvez porque o mar parece maior e nos chame baixinho para o conhecermos melhor. Mas eu nunca fui dessa imensidão líquida. Sempre fui de voltar, como as ondas. Mesmo na calmaria, mesmo nas tempestades. A cidade calava-se e ninguém dizia fosse o que fosse. As tuas mãos, amor. As tuas mãos. A tua casa, amor. O teu peito. Essa caixa onde me prometeste guardar do mundo. Talvez porque o medo. Talvez porque o mundo. Talvez porque o amor. Talvez porque seja inevitável pensar no depois. O que fazer depois do amor? E tu guardavas as lágrimas dentro das mãos. Procuravas a sombra dos lugares frescos onde pudéssemos nos esconder e descansar um pouco . Mas tu nunca me largavas a mão. 

Quis viver para sempre nos teus olhos. Ainda quero. 


PedRodrigues

domingo, 29 de maio de 2016

Sem título

Prenderam-me o coração
numa gaiola de
ossos, e carne, e pele
Tinham medo que ele voasse
                                                       livre
e nunca mais voltasse
Mas ele acaba sempre por voltar:
ou por mais comida, ou por mais água, ou por mais amor
Às vezes de asas partidas.
É o preço da
                      liberdade

PedRodrigues

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Por vezes

Por vezes os amores
viram músicas, e as músicas
são amores que cantamos
E ao longe os amores
não são músicas, são
somente as lágrimas que choramos.
Por vezes os amores
viram noite, e a noite são amores
que embalamos
E ao longe os amores
não são noite, são somente as estrelas que contamos.
E por vezes os amores são doces,
na vida amarga que levamos
E por vezes, às vezes, só às vezes, os amores são o travo da boca que beijamos.

PedRodrigues