quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ela

O que mais me atraía nela, não era o sorriso cor de pérola ou a forma como lançava uma gargalhada fácil, nas situações mais embaraçosas. Não era sequer a forma como por vezes me olhava: perdida em não sei quantas concepções e cenários românticos montados por dentro. Há mistérios que não têm solução. Silêncios que pertencem ao silêncio e não podem ser quebrados. Creio que era isso que me mais me prendia a ela. Esse mistério. Como por exemplo, a sua cor favorita serem as ondas. Ou tudo aquilo que não fazia parte desta geração, tudo aquilo que não era do nosso tempo, lhe assentar como uma luva. Há pessoas assim: incomuns. Gentes curvas, num mundo recto. Feitas de pequenas partes de matéria, que parecem não fazer qualquer sentido e, no entanto, arrastam-nos e absorvem-nos como se fossem uma necessidade que precisamos de satisfazer. Ela era uma dessas pessoas.
 
PedRodrigues

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Coimbra, no momento da partida


Lembro-me da primeira vez que te vi realmente: vestida de negro e iluminada por uma lua enorme cor de pérola. Senti uma certa vertigem cá dentro, um orgulho imenso que ainda hoje não consigo explicar. Nesse momento percebi o verdadeiro porquê das baladas, do choro das guitarras. Observei a disposição de cada edifício; a universidade lá no alto; a cabra a guardar cada canto, cada pedra. Senti-me em casa, no verdadeiro sentido da palavra casa. Como se fosses uma extensão física de mim. Uma necessidade lógica de viver para lá do meu corpo.
Desde esse dia até hoje, passaram-se anos. O tempo é inevitável. Passa por nós e vai-nos transformando aos poucos. Mas há coisas que ficam marcadas por dentro. Coisas que guardamos de forma a que sejam eternamente nossas. De ti guardo todos os momentos que me trouxeram até aqui. Os joelhos esfolados das quedas que me foram tornando mais forte. As conversas partilhadas entre os amigos que me apresentaste e que guardarei para a vida. As gargalhadas e as bebedeiras dessa juventude sónica que parece ter passado a correr. Os primeiros sorrisos dos amores começados à beira rio; as últimas lágrimas choradas em bancos de jardim por esses mesmos amores. De ti guardo esse ponto cardeal que será para sempre a minha juventude. O porto de abrigo necessário que continuarei a procurar e a recordar ao longo da vida. Guardo essa ténue linha que separa essa mesma juventude da idade adulta. A metamorfose de quem entra menino e sai homem. Guardo de ti essa saudade dos passeios nas tardes de primavera. O calor infernal das tardes de Junho. A beleza das tuas entranhas feitas de pedras históricas e conhecimento. A alegria dos cortejos de caloiros e finalistas. Guardo de ti as músicas cantadas em uníssono de copo na mão. A capa negra que me lembrará para sempre dessa primeira noite em que te vi com olhos de gente; a mesma capa que um dia vesti com tanto orgulho.
Ficará muito por dizer. O silêncio guarda as melhores palavras, as melhores histórias.
Dizer adeus a algo - ou alguém - que amamos será sempre doloroso. Deixar para trás o que conhecemos, o que faz parte de nós, exige um esforço sobrenatural. Mas tudo tem o seu tempo. Nada é para sempre. Chegámos ao fim da canção. É hora de partir com a certeza desse passado. Com a certeza desse futuro que começou em ti. Do mais fundo de mim, agradeço-te por tudo. Por me teres acolhido e moldado à tua imagem.
Obrigado, Coimbra. Esta lágrima que choro, é feita de ti.
 
PedRodrigues

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Os Invisíveis


Então corri a calçada da cidade como se me pertencesse. Olhei. Pessoas apressadas, de passada larga, pessoas de outras terras, outros lugares, a admirarem tudo à sua volta, de máquina fotográfica em posição de disparo: monumentos, casas, estradas, o céu. Admiravam tudo, menos aqueles que julgavam invisíveis. Almas perdidas pelos cantos da cidade. De palmas abertas à procura de uma esmola: para matar a fome: de comida, de droga, de álcool, de tabaco. Alguns pareciam-me perdidos no momento. A pobreza e a solidão não têm relógio, ao que parece. As noites são frias, os dias são quentes. O mundo acontece à sua margem. Alguém se esqueceu deles. Talvez porque a pobreza seja um embaraço. Talvez porque o medo da queda, para quem olha de cima, é enorme. À sua volta há gargalhadas. Miúdos de sacos carregados de coisas que provavelmente não necessitam. De telemóvel na mão, a mandarem a próxima mensagem sem sentido. Quem os pode censurar? Não têm preocupações ou necessidades, mas a culpa não é deles. Não foram os seus telemóveis topo de gama que apagaram estas pessoas da sociedade; não foram eles que os marginalizaram. A culpa morreu solteira – sempre ouvi dizer. A cidade é um organismo vivo que nos absorve. Há quem caia e quem se levante. Há quem viva para as fotografias nas redes sociais, e quem nem saiba o que isso é. Ninguém pode culpar uns, ou outros. É a ordem normal do mundo. O desequilíbrio que me custa engolir. Neste momento, enquanto escrevo esta crónica no meu computador, há quem  esteja a contemplar o céu, nesta noite amena de primavera. Imagino-os a sonharem com outro tecto sobre as suas cabeças. Imagino que não sonhem com a sua fotografia nas redes sociais, ou com a sua cara no jornal das oito. No entanto, acredito que eles queiram ser vistos. Nem que seja aos poucos, como se as pessoas estivessem agora a acordar, de olhos ainda remelosos. Sempre me disseram que todas as coisas que existem têm uma sombra. Talvez eles sejam a sombra desta sociedade injusta. Quanto maiores formos, maiores serão as nossas sombras – é física, pelos vistos.

 

 

PedRodrigues