sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

O meu lugar


Nem sempre o horizonte é uma linha recta - pelo menos aqui. Noutro lugar, haverá outros horizontes. Talvez sejam linhas rectas, ou não. Não sei. Conheço o horizonte deste lugar. Embora por vezes ainda me surpreenda. Conheço o horizonte do meu lugar. Foi aqui que nasci. Foi aqui que cresci. Foi aqui que dei o meu primeiro beijo. É aqui que me perco. É por aqui que desespero, quando estou longe. Este é o meu lugar. Diz-se que “casa é onde o coração está”. Não podiam estar mais certos. Vá para onde for, a minha casa vai comigo. É por este horizonte que desespero – e ainda cá estou. Tenho vontade de conhecer o mundo, tenho vontade de viver noutros lugares, de conhecer e viver novas culturas. Mas este será sempre o meu horizonte: um mar de prata imenso, que se desmancha freneticamente na areia. Para onde quer que vá, levarei este cheiro comigo. O toque salgado das areias e das algas deste mar. É bom partir, se tivermos para onde regressar. Tenho para mim que a vida se perde numa circunferência: começa e acaba no mesmo ponto. Tenhamos nós a sorte de acabar de a desenhar. Tenhamos nós a sorte de partir, para regressar.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Não sei que título dar a isto


Não quero olhar para ti e pensar que foste aquela que deixei fugir.
Vou esperar que o tempo passe, a poeira assente e tudo volte ao sítio certo – se é que há um sítio certo.
Vou esperar pela neblina da manhã do primeiro dia da primavera, pelo vermelho fogo do pôr-do-sol do primeiro dia de verão, pelo cheiro da terra molhada do primeiro dia de outono, pelo calor humano partilhado na primeira noite de inverno.
Vou esperar. Sem pressa de nada. Sem vertigens de ansiedade.
Vou esperar no meu canto, sem te pressionar.
Não vou adiantar os ponteiros do relógio. Rezar aos anjos e aos santos para que o tempo acelere. Não me vou desdobrar em pensamentos, ou invenções. Não me vou lamentar, como um parvo.
Vou esperar.
Devagar, o momento certo há-de chegar. Quero estar preparado.
E quando olhares para mim, espero que digas que sou aquele que acertou.
Quero ser aquele que ficou.

 

PedRodrigues

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

Às mulheres que terminam capítulos

Então saiu à rua. Muito senhora de si. De lágrimas guardadas na mala, ao lado da maquilhagem. De esperança nos olhos e sonhos desenhados nas palmas das mãos. Às vezes é preciso um ponto final, e não uma vírgula. Os capítulos começam com letra maiúscula – aprendeu na escola. Olhou para trás e ele ainda lá estava. Se deres mais um passo, cais no precipício, pensou. Já não há chão entre nós. Acabou. Desabou por completo.  Se deres mais um passo cais no precipício. Agora eu avanço sem ti.  Já nada nos une. Já nada de bom nos une. Já nem as lágrimas te choro. Já nem o luto te faço. Acabou. Acabamos por perder aquilo que não sabemos guardar. E tu perdeste-me, pensou. Nem uma palavra ela disse. Nem um som ela fez. Nem uma última lágrima, por ele, ela chorou. Diz-se que o destino é um corredor muito longo com várias portas. Ela acabara de fechar uma. E preparava-se para abrir outra.


PedRodrigues