segunda-feira, 27 de julho de 2015

Às mulheres de armas

[Excertos perdidos pelo computador: início de 2015]
 
 
Aqui não há princesas, pensou. Há mulheres de carne e osso, falíveis como qualquer outra criatura. Não há contos de fadas – isso são coisas da inocência. Sorriu. Nem tudo na vida nos faz chorar.  Os dias começam quando metemos os pés no chão. Vestiu-se e saiu à rua. Sem se preocupar com essas trivialidades sociais: estar bem vestida, ou bem maquilhada, ou outra coisa qualquer. Aqui não há princesas. Há mulheres de armas: marias dos canos serrados. Mulheres que levam a vida à lei da bala. Talvez isto seja mais um filme de acção, que um romance de domingo à tarde. Daí se ter vestido de ela mesma. Enquanto se olhava ao espelho, pensava: és tu que importas. Decidiu meter-se em primeiro lugar. Apagou o número dele do telemóvel, olhou as horas e percebeu: está na hora de ser feliz.

 

PedRodrigues

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Voltei a sonhar contigo


As tuas fotografias
são uma ameaça
à minha sanidade mental.
Disseram-me que o tempo
diluía a imagem do teu rosto;
as memórias dos passeios
de mão dada junto ao rio.
Mas o eco das nossas conversas
ainda me persegue.
Foste embora,
Sem nunca teres ido embora
Agora a certeza fria desse
passado atormenta-me
Não me abanem
Posso estar só
a sonhar...

 

PedRodrigues

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Valsa lenta


Às lágrimas da Tiz

 

 

Não leves quem nos ama. Temos medo de ficar sozinhos. O tempo não cura nada: ameniza, mas não cura. A dor da perda mantém-se. Nada traz de volta os sorrisos, nem as longas conversas no sofá, nem os gritos por ter feito alguma travessura. Devagar o tempo entre nós e essas recordações: fica o vazio. O quarto sem a presença humana, gelado. Nada. Devagar apenas as fotografias pela casa. O teu sorriso. Devagar o teu sorriso escondido por dentro, atrás dos olhos, onde mais ninguém o vê. Devagar as saudades: esse aperto fogoso no peito, essa coisa miudinha que parece atormentar mais quando as luzes se apagam. Devagar as viagens até ao cemitério. Os beijos na pedra. Os pedidos de guarda, aí de cima – será que estás aí? Fazem-nos acreditar que desse lado, vocês nos guardam. Talvez seja uma forma de nos reconfortarem. Há um conforto estranho que encontramos nas mentiras. E por vezes mentimo-nos para mitigar a dor. Ela continua. Continuará. É a diferença entre o teres estado e o já não estares. Por muito que chore, por muito que grite, por muito que peça a todos os anjos e santos, não voltarás. O calor dos teus abraços desfez-se. O toque dos teus lábios na minha testa não passa de uma memória. E os teus gritos, avó? O toque áspero das tuas mãos? O timbre da tua voz a contar histórias de outros tempos. A que soava a tua voz? Era às ondas, avó? Era ao vento de inverno, ou à brisa de verão? Faço tanta força, às vezes, para recordar todos os teus tiques. Depois lembro-me das tuas manias a fazeres a sopa. Tardes inteiras dedicadas aos legumes, à água, ao azeite. Aquele truque, avó. Aquele truque que lhe dava a consistência certa, o paladar exacto. E as saudades desses dias que foram nossos, esse tempo exacto em que tudo estava completo. Ficou a tua ausência, avó. O murmúrio do passado sussurrado ao meu ouvido. Não leves quem nos ama. Não leves quem amamos. Deixa-nos ficar aqui a contar histórias e a sorrir eternamente. O tempo das ondas lembra-me todos os amores que um dia caminharam de braço dado comigo. Tenho tanto medo de ficar sozinho...

 

PedRodrigues