quarta-feira, 20 de julho de 2016

Num dia de sol


Naquela tarde o mar estava sereno. As ondas eram pequenas espumas intermitentes, contando os segundos entre os gritos dos miúdos que construíam castelos à beira da água. Eu olhava-os e imaginava salões enormes, feitos de areia molhada e conchas, uma varanda onde pudéssemos ver o mar de mãos dadas - não só naquela tarde, como em todas as tardes do resto das nossas vidas. Ali tudo era nosso. O teu nome entre as rochas, escondido, com medo da subida das águas, seria para sempre essa certeza dura - mesmo nos dias de tempestade, em que tudo se revolta em tom de batalha. Mas, naquela serena tarde, estavas tu, de cheiro a mar no cabelo, a contar o tempo das ondas e a tentar adivinhar quantos horizontes tem o infinito. No céu nuvens desenhavam formas aleatórias que dizíamos serem coisas concretas: animais, rostos, máquinas. Tudo se compunha de acordo com a nossa imaginação: assim fosse a vida. Naquela tarde tudo era nosso. O tempo jogava a nosso favor: tínhamo-lo todo só para nós. Podíamos moldá-lo à nossa maneira, construí-lo juntos, como os castelos dos miúdos feitos com a areia molhada. E abrir uma janela, com uma varanda e vista para o mar, onde nos pudéssemos sentar, até sermos velhinhos, a inventar formas à teimosia das nuvens.  

 

PedRodrigues

domingo, 17 de julho de 2016

Flores selvagens


Eram flores selvagens. Amores perfeitos não nascem em vasos. São livres, como a brisa que ainda sopra no verão da nossa infância. Nesse tempo em que tudo parecia mais simples. Onde tudo parecia fácil, como fechar com força os olhos e imaginar outros lugares: praias lindíssimas, lugares na lua, casas junto a quedas de água. E, hoje, tu ao longe, como os amores perfeitos, tão selvagem, tão dona de ti, tão senhora de todas as razões. Eu aqui, atrás do vidro da janela, a olhar-te a crescer, em silêncio, com medo de te assustar, ou de provocar um vento que te leve. O amor passa-nos depressa, como o queimar de um cigarro. Ficam as cinzas do que noutros tempos ardeu. Não há chama que dure para sempre. Não há chama que dure sem consumir outros elementos. Tu de um lado do vidro, eu do outro. As tuas cores sem se misturarem com as minhas. O teu cheiro pelas almofadas e pelos lençóis ainda amarrrotados de todas as batalhas de amor. Não há guerra que dure para sempre. No campo, depois da guerra, nascem as flores, por entre as beatas. Falaram-me de haver uma forma de atravessar o vidro sem me cortar. De um país para lá do teu reflexo. A viagem é difícil. Talvez porque depois do adeus não há jornadas fáceis, talvez porque as saudades se descuidem líquidas pelos olhos, como um aguaceiro a anunciar outros começos. Lembrar-me-ei para sempre da rebeldia selvagem com que fugias à prisão dos vasos. E eu que te queria a crescer dentro de uma caixa, junto do meu coração. Eu que te queria, mas tu não.

 

PedRodrigues

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Pray for the world



O mundo, como o conhecemos, parece estar a mudar. Faz-me lembrar a velha história da Arca de Noé, que nos contavam na catequese, em que um grande dilúvio varria a terra, levando à sua repopulação. Dizem os radicalistas que, por vezes, de tempos a tempos, a humanidade precisa de um novo começo. Ao encontro destas teorias bíblicas vai o mundo de hoje. Tudo parece estar a mudar. Assistimos, diariamente, a matanças desenfreadas. Ninguém é poupado: nem homens, nem mulheres, nem crianças, nem velhos. O medo vai-se instalando de mansinho, por mais que se apregoem motes como “não nos renderemos”, “não nos esconderemos”, “não teremos medo”. No fundo, todos tememos o que se está a passar e olhamos por cima do ombro, amedrontados, procurando suspeitos. No meio da carnificina, alguém há-de ser o carrasco. Muitos apontam os inocentes - porque não podemos ser todos inocentes - e discriminam pela raça, ou religião. Quem os pode culpar? O medo tem destas coisas e, quem o promove, sabe o que está a fazer.  É a velha máxima: “dividir para conquistar”.
Os atentados de ontem, em Nice, só vêm dar mais força a essa ideia de mudança feita de sangue.  Por muito que culpemos o movimento cobarde de uma organização criminosa, não creio que a cabeça do dragão se corte por aí. É um erro acharmos que, por se enviarem tropas para o terreno e se bombardear uma região, os atentados irão acabar. Não. Há, claramente, uma entidade superior a tudo isto que tomou conta do mundo sem que déssemos conta. Alguém que, entre os homens, brinca de Deus. Estes atentados são estilhaços de uma bomba que rebentou silenciosa e que, mais cedo ou mais tarde, irá mudar tudo o que conhecemos. Cuidado, há ventos de mudança - e não creio que nos levem a bom porto.  


PedRodrigues