quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Timing


Não creio que a felicidade se tenha esquecido de nós. Talvez seja uma questão de timing. Mais tarde, quem sabe? A vida tem esta mania sádica de destruir o que é bom. Resta-nos a persistência, o engenho, a calma. Podemos chorar – devemos chorar, ora essa – esbracejar, espernear, berrar. Partir a loiça toda. Podemos passar noites em branco a recordar o que era bom, o que nos unia. A indagar os porquês e a procurar soluções. Sonhar um com o outro: o que podíamos ter sido. O que podemos ser. Mas tu estás aí e eu estou aqui. Separados por quilómetros e horas. Por espaço e tempo, que não encurtam com a nossa vontade. A vida é uma merda. Eu sei e tu também sabes. É um campo de batalha e só quem luta acaba por vencer. Deste lado eu vou lutando. Desse lado também lutas. Não te peço que esperes por mim, assim como não me pedes que espere por ti. Há caminhos que precisam de ser percorridos. Os caminhos são feitos por quem os caminha. Amar significa deixar que o outro faça o seu caminho, mesmo que esse caminho não seja o nosso. Sei que custa, mas o amor é um tipo fodido. Nada a que não estejamos habituados. Somos uns guerreiros do caraças, não somos? Talvez tudo isto seja apenas uma questão de timing. Ou um erro de julgamento dessa força dinâmica que mete ordem no mundo. Há que ter paciência. Se tiver que ser, será.

Não creio que a felicidade se tenha esquecido de nós.
Digo e repito.

 

PedRodrigues

domingo, 7 de Setembro de 2014

Poema a quente


Olhei em volta e não te vi
O meu copo teimava
Em desaparecer
Pedi outra bebida e
Esperei
Mas não sabia
Se irias voltar
Olhei o relógio
E percebi:
Era tarde e não ias regressar
Perdi-te e nem percebi
Que viver sem ti
É querer-me matar

 

PedRodrigues

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Ensaio sobre o final de uma relação

Nas palavras dela, a culpa é minha. Porque depois do último adeus, do último beijo, me afastei. Diz que ainda me ama, ainda sonha comigo, ainda pensa, várias vezes, – demasiadas, segundo ela – em como seriam as nossas vidas se não nos tivéssemos separado. O que ela não compreende – e é isto que me irrita – é este sorriso e boa disposição com que disfarço as noites mal dormidas, as greves de fome, os soluços no peito sempre que vejo as fotos dela com as amigas a beber uns copos. Nas palavras dela, sou o vilão por ter esquecido tudo aquilo que passámos juntos. Por não a ter procurado quando ela mais precisava – e ela precisava sempre. Por sair à noite e não lhe dizer seja o que for. Esqueci-a. Fui eu que a esqueci e a desliguei num interruptor qualquer. Mas o que ela não entende é que apesar de sair com os meus amigos, não me esqueço dela. Quando bebo uns copos faço uma força imensa para não pegar no telemóvel e lhe dizer tudo o que sinto, todas as saudades que não consigo abafar por mais que tente. Não entende que preferia estar deitado com ela a ver um filme qualquer – não importa qual – e a fazer jogos de força com os pés em que nenhum de nós ganha ou perde. O que ela não entende é que durante todo este tempo, sempre que falava com ela, a convidava para vir ter comigo, mas ela não tinha tempo. Fazia-me de convidado para ir ter com ela, mas ela não tinha espaço. Acho que ela não me entende. Talvez eu não a entenda a ela, também. As coisas são como são, e por vezes os opostos atraem-se só para se destruírem um ao outro. Imagino que seja esta a lei fundamental das coisas. Não me vejo como um pobre coitado, que neste momento está sozinho na ressaca de uma relação. Assim como não me vejo como um vilão. O que não falta por aí são músicas sobre corações partidos, desgostos de amor e toda essa panóplia de flagelos amorosos. Mas a vida é mesmo assim: de tanto ouvirmos a mesma canção acabamos por nos fartar. Resta-nos apenas ter vontade de mudar e procurar uma canção diferente.
 
PedRodrigues