quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Fevereiro

Dizias-me - Para sempre
e eu respondia-te
que a eternidade é
um tempo muito vago
Tinhas medo do depois,
da incerteza das estações
Eu também nunca entendi
o porquê das chuvas
nos meados do Verão
Sussurravas-me ao ouvido:
-Talvez o céu chore
com saudades do chão
Enquanto eu olhava desconfiado
procurando a real razão
E tentava explicar-te
As leis da gravidade
usando-nos como exemplo
num cálculo mais exacto
Tu olhavas para mim
Como que decorando a minha imagem
E eu escrevia-te na minha pele
como se fosses uma tatuagem

PedRodrigues

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Aos snobs


Não sou destas coisas. Gosto pouco de tratar como diamante os pedaços de vidro que me tentam cortar. Mas achei pertinente. Talvez por estar cansado de lidar com Sábios do Sião, que se acham demasiado acima de todos os outros, a olharem do alto das suas torres de marfim, enquanto bebericam o seu cálice de vinho quente. Os snobs quase-alternativos que se acham tão distantes de tudo. Sempre sabedores da mais profunda cultura, à qual só eles chegam. Os fãs incondicionais de tudo o que é menos conhecido, tudo o que foge às massas. Os tais redondos em formas quadradas, ou vice-versa. Que recitam a poesia dos autores mais indigentes, perdida pela internet, e passam a imagem de conseguirem falar horas sobre a literatura russa do século dezanove, ou os grandes pensadores franceses, escondendo no seu íntimo o facto de que a última obra mais extensa que leram foi a bula do psicotrópico tomado antes de um concerto qualquer, numa garagem qualquer, fora do alcance dos restantes mortais. São esses os mesmos snobs que usam as redes sociais – e talvez entre aqui a maior de todas as ironias – para criticar tudo o que julgam chocar com a sua cultura refinada. O meu único desconsolo, no meio de todo este aparato, é que essas mesmas criaturas místicas ainda não se tenham apercebido de uma estranha coincidência: respirar é algo demasiadamente mainstream. Quando é que começam um concurso de apneia?



PedRodrigues

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

[Dentro da cabeça dela]

Às vezes tudo o que preciso é de um beijo na testa, um carinho. Um “como correu o teu dia?” sincero. Preciso de alguém que esteja. Não por partes, não com o corpo presente e o olhar ausente, com vontade de fugir. Não preciso de ramos de flores todas as semanas, de jantares românticos todas as noites, de joalharia cara, ou roupas da moda. Preciso que estejas. Comigo. Por inteiro. Sem te esconderes na tua cabeça, nos teus problemas - onde não consigo chegar. Sem me olhares com vontade que fosse outra qualquer. Quero-te aqui, comigo. Não por te sentires obrigado a ficar. Não. És livre de escolher o que te faz feliz. Só espero que essa escolha seja eu. Espero que seja o meu corpo que procuras durante a noite. Os meus ombros despidos que beijas à meia luz. As minhas mãos que exibes, triunfante, na rua, amarradas nas tuas. É isso que quero. É disso que preciso. Não que te arrastes: por comodidade, ou conveniência, ou rotina, ou outra coisa qualquer. Quero a vontade do primeiro beijo. A adrenalina de me sentir desejada. Quero sentir o teu sangue a pulsar nas veias enquanto estamos deitados um sobre o outro. Quero dizer-te todos os dias “até amanhã”. Esquecer que existe a palavra “adeus”. Sou parva, eu sei. Nada dura para sempre, eu sei. Mas eu quero. Nem que seja até um dia - e esse dia seja o último. Não preciso que te preocupes com isso, nem que me faças o centro de todas as conversas com os teus amigos. Não preciso. Só preciso de estar – e que queiras que eu esteja. Não preciso de clichés. Nem que tomes conta de mim. Sou independente. Só quero partilhar a minha vida contigo, porra. Mas se não tiveres espaço para mim, deixa-me partir. Não me iludas. Não me prometas a lua, se nem um metro quadrado na terra tiveres para me dar.


PedRodrigues