domingo, 26 de dezembro de 2010

Contos do Rio

Filhos do Mondego: Contos do Rio

No tempo em que o tempo não era tempo, havia um rapaz e uma rapariga. Ao longe, Deus pregava partidas. Entre o rapaz e a rapariga existia um rio. As mesmas águas molhavam os pés de ambos. Ao longe, eles amavam sem se tocar. Ironicamente, o mesmo rio que os unia, também os separava. Mas nunca ninguém lhes disse que o amor era fácil.
Um dia, farto de esperar, o rapaz nadou até à outra margem do rio. Ela esperou por ele, na margem do rio. O tempo corria ao contrário, na terra onde o tempo não era tempo. Eis que ele se ergueu da água, os cabelos longos, encaracolados, ainda escorriam as águas do rio, como se chorassem de alegria por encontrar a rapariga. Ela abraçou-o. Os cabelos lisos e pele morena, queimada pelo sol, olhos grandes e escuros como a noite, imensos como o universo… Tudo como o rapaz vira ao longe, da outra margem do rio. Tudo o que ele pensava, várias vezes, ser uma miragem. Mas que desejava do fundo do seu âmago que fosse real. Neste momento, tudo isso era palpável, visível, real… Aquele abraço durou uma pequena eternidade. Embora não o suficiente.
Na terra onde o tempo não era tempo, o tempo tornou-se tempo, depois do abraço. O problema dos contos de fadas é mesmo esse: eles acabam. Os dias de bonança tornaram-se curtos e as tempestades teimavam em não cessar. O rio deixou de correr ao contrário. Corria agora para o mar. No mundo real, o amor não chega. No mundo real, os amores estão separados por oceanos. Ela sabia que ele era o homem da sua vida. Aquele que lhe olha nos olhos e lhe consegue ver a alma. Que entende os desejos e medos pelo volume de um sorriso. Mas nunca ninguém lhe disse que isso era suficiente. Até as estrelas caem do céu.
Roma ardeu. Nem as águas do rio conseguiram apagar o fogo. Ficaram as cinzas. O rapaz confrontou a rapariga. O amor tem destas coisas. Todos nós erramos, na vida real. A discussão foi tão acesa como o fogo que queimou Roma. No final, a rapariga, de lágrimas nos olhos e voz trémula, respondeu:
- Roma ardeu, mas a culpa não foi minha…
Ela debatia-se consigo mesma. Mesmo sabendo que o cerne da questão era ela. Ele conseguia ver-lhe a alma pelos olhos. Embora cada olhar fosse mais um golpe no seu coração. Ele sabia que a faísca que começara o fogo era ela. Eis a raiz de todos os males: o amor.
Então, depois da tempestade, sentaram-se ambos nas margens do rio. Molhando os pés nas mesmas águas que os separavam, no tempo em que o tempo não era tempo. Ela deu-lhe a mão e ele olhou-a nos olhos. O seu tempo tinha passado. Assim ficaram até ao pôr do sol. Nesse momento, veio o frio na espinha. Eis Deus e as suas partidas. Acordaram. Os pés já enrugados de passar horas submersos nas águas do rio. O rio corria para o mar, mas eles desejavam que assim não fosse. Cada momento era menos um momento para estarem juntos. Na terra onde o tempo não era tempo, o tempo corria ao contrário. Ali, as rugas também eram marcas do passar do tempo. A felicidade não era eterna e também envelhecia. Eles sonhavam, mas sabiam do seu destino. Ele não tirava os olhos dela. Ela não largava a mão dele. Como se tivessem medo de deixar partir um ao outro. Quanto tempo ainda lhes restava?
Devagar, mudou o vento. Os pés já não tocavam o rio. Ele já não olhava para ela. Não por falta de encanto: ela será sempre ela. Mas, infelizmente, o tempo é assim mesmo. Roma ardeu até ás cinzas. Ela compreendeu. Embora ainda acreditasse que havia volta a dar. A mão dela continuava agarrada a ele. De forma ténue, com medo de largar. O medo do abismo era grande. Nunca sabemos o que vamos encontrar no fundo do abismo. Na terra onde o tempo não era tempo, não existiam abismos. Nunca ninguém lhes disse que a vida tinha um rumo certo.
O tempo passou. O rio continuou a correr para o mar. O rapaz partiu para a sua margem do rio. A rapariga chorou um oceano de lágrimas. O amor também é isto: a perda. Em lados opostos do rio, o tempo parecia não ser tempo. Mas agora o tempo custava a passar. Agora, cada ruga era uma chaga, cada chaga uma marca do amor que cada um sentia pelo outro. Roma ardeu. Nem os grandes impérios conseguem erguer-se das cinzas, imponentes como antes. O rapaz e a rapariga ainda se sentam em margens opostas do rio. O mesmo rio que os une, também os separa. Nunca ninguém lhes disse que os contos de fadas têm sempre um final feliz.




PedRodrigues


Reflexões a quente

Detesto as pessoas que pregam a originalidade. A falta de originalidade está aí, algures. Todas as grandes ideias já têm patente registada. Todas as outras são o reflexo delas. Gostava de ter descoberto a roda. Pensando bem: quem se lembra do inventor da roda? Que coisa banal. Todos querem ser originais. Ninguém quer ser mais uma gota no oceano. Mas, na verdade, não há oceano sem gotas. Eu não sou original. Sou uma gota. No entanto, não sou igual a ninguém. Tenho pena de não ter nascido mais cedo. Hoje, sinto-me um plagiador. Sinto-me um reflexo de tudo o que leio. Tudo me atormenta. Nunca fiz um risco de coca. Não fumo. Bebo álcool socialmente, fora isso só água. Nisto sinto-me original. Normalmente as palavras matam. A palavra certa pode começar guerras. A alma é escrava das palavras. Sempre ouvi dizer que as palavras ferem. Cada palavra é uma seta apontada ao coração. Apetece-me bater com a cabeça na parede. A alma é escrava das palavras e o corpo é o seu reflexo. Cada grama de coca corresponde a um quilo de palavras, para alguns. Nisso, sinto-me original. Mas, sou uma gota no oceano. Já não há génios. Hoje a sabedoria está ao alcance duma palavra. Agradeçam à internet.. Hoje os génios são como as gotas de água. Devia ter nascido mais cedo. Que tormento. Ainda ontem era Natal e estava feliz. Nem o Natal é original. Dois mil e dez Natais... Quem me dera ter descoberto a alavanca. Quem me dera mover o mundo. Génios? Só nas lâmpadas. Mas não há direito a três desejos. Tenho pena de mim, que nada sei. Tenho pena de não ser original, embora seja original. Detesto quem prega ao mundo a originalidade. Detesto ainda mais quem prega a originalidade com frases feitas por outros. Com ideias alheias. Não há oceano sem gotas. Não há palavras pouco importantes. Quem me dera ter nascido mais cedo... Ainda vinha a tempo de ver nascer o sol. Quem me dera escrever com a alma. Também eu sou escravo das palavras...

PedRodrigues

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Hoje é a noite de Natal. O Pai Natal enganou-me. Eu até me portei bem este ano... Ele não deve gostar muito de mim. Cá para mim é da velhice. Nunca ouvi falar na Mãe Natal. É um velho solitário, o Pai Natal. Espero não ter o mesmo fim dele. Que velho hipócrita. Prega a alegria e é uma pessoa solitária. Aposto que não é feliz. Nem acredito em altruísmo radical. Somos todos altruístas quanto baste. Sinceramente, já fui mais fã do Natal. Hoje cheira-me a consumismo, misturado com o cheiro das rabanadas e do azevinho. Mas, continuo fã. Todos os dias prego ao velhinho hipócrita em vão. Não deve ir com a minha cara. Ou então, as preces não chegam ao sítio onde ele vive. Talvez o amor não caiba no sapatinho... Realmente, tenho muito amor para dar. Não gosto de dar amor a preço de saldo. Mas, sou uma pessoa generosa. Apaixono-me a cada dez minutos. Gosto de várias mulheres, embora seja monógamo como os pinguins. Sou monógamo pela pessoa certa. Peço desculpa a todas as outras. Vou dar umas férias ao Pai Natal este ano. Ele que faça um desvio para sul e fique por lá. O velhinho hipócrita também tem direito a ser feliz. Pode ser que encontre a Mãe Natal e deixe de ser hipócrita. Eu gosto de velhinhos felizes. Talvez o velhinho feliz me faça a vontade. Já estou farto de esperar. Já estou farto de dar amor ao próximo. Tenho tanto amor para dar e ninguém para o receber. Tenho pena do velhinho hipócrita. Tenho pena de mim. Já gostei mais do Natal. Tragam-me droga que o amor já não me dá ressaca. Tragam-me o amor que eu dou-lhe uso. Só é pena não o dar a quem merece. Estou farto de dar amor a preço de saldo. Estou farto de me apaixonar por dez minutos e a cada dez minutos. Tenho pena do velhinho hipócrita. Gostava que fosse um velhinho feliz. Talvez o velhinho feliz me traga a felicidade no saco. Sou fã de finais felizes e amores ao preço do ouro...


PedRodrigues

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Afinal, veio o copo de gin. Hoje fui para a noite. Estava frio. Dentro das quatro paredes o calor humano sente-se. Que bebidas espirituosas. Sinto o álcool nas veias. Gosto de me sentir assim: solto. Acabei a noite numa casa de mulheres. Peço desculpa pelo barulho. Mas gostei do ambiente. Gosto de estar no meio das mulheres. De as tentar compreender. Alguém compreende o leão na selva? Não falo do acasalar e da alimentação. Alguém o compreende realmente? As mulheres são assim. Ninguém as compreende. Umas falam connosco. Da nossa vida. Da vida delas. Outras chegam e falam com as que já lá estão e tentam ignorar os homens. Que bebidas espirituosas. Talvez esteja a ver tudo mal. Talvez o álcool não ajude. Mas, na casa delas, tudo parece simples. Para as mulheres o mundo é simples. Gostava de chegar, comer e esquecer. Adorava compreender as mulheres. Contei vários segredos, hoje. Vendo bem, não eram segredos. Senti vontade de me partilhar. De meter as tripas de fora. Não me senti exposto, nem envergonhado. Gostava de as poder ajudar, por vezes. Se elas me ajudassem... O mundo das mulheres é complexo. Elas falam por telepatia. Senti-me um estrangeiro, na casa das mulheres. Se pelo menos tivesse o meu copo de gin... Cada vez gosto mais das mulheres. Adoro dar-me ao desafio. O que é a vida sem busca? Não é o amor a cruz no mapa? Na casa das mulheres não vi cruzes. Mas gostei de lá estar. Tentei falar nos entretantos. E ouvir nas entrelinhas. Talvez o amor esteja na casa das mulheres. Talvez a casa seja a cruz no mapa. Quem sabe? Vi o sol a nascer da varanda. O amor também nasce com o sol. Se o sol tivesse sangue, também amava. O nascer do sol faz-me lembrar a casa das mulheres. Cada mulher é um sol. Cada homem um planeta. Na casa das mulheres senti-me assim: preso a vários centros de gravidade. Na casa das mulheres não nasce o sol. Adoro o silêncio das paredes. Faz-me parar para pensar. Será a casa das mulheres, o nascer de alguma coisa ?


PedRodrigues

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Poema número vinte e oito


Com sorte, levas um corte



Fala-me um pouco mais de ti,
Antes que perca o Norte.
Chega de falar de mim
Que a bebida já está forte…
E eu estou a alucinar:
Já te estou a ver despida
No meu corpo a tocar
Como álcool em ferida.
Sinto então um arrepio
E o bater de um coração
Tento desviar meu corpo
Do toque da tua mão.
Acordo, então, por fim
De tamanho desvario
Estás a olhar para mim
E eu para o copo vazio.
Arranjo forças cá dentro
E digo-te um “olá”
E tu estragas-me o momento,
Respondendo: “ Até já!”



PedRodrigues

domingo, 12 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Gostava de saber falar de mim. Não sei como o fazer. Pareço tudo, menos modesto, quando falo de mim. Vou tomar um shot de água benta. Gosto de ver as pessoas da janela do meu quarto. Cabem-me na palma da mão. Gosto de as ver apressadas. Gosto de ver o amor do meu quarto. Os casais apaixonados. No meu quarto ninguém me magoa. Posso pensar. Posso meter-me no lugar desses casais. Da janela do meu quarto a vida parece um filme. Gostava de ver o mundo. Da janela do meu quarto não vejo o mundo. A vida parece um filme. No meu filme, quem manda sou eu. Sou actor principal, realizador, guionista, produtor... Só me falta a actriz principal. Já conheci muitas actrizes secundárias. Não encontro a actriz principal. A menina do feliz para sempre. Gostava de a conhecer. Não sei mesmo falar de mim. Pedro e o mundo das mulheres. Devia ser o título da minha vida. Cada mulher é um mundo. Demoramos a conhecer o mundo de cada mulher. Adorava conhecer o mundo. Perco-me tantas vezes. Já conheci vários mundos. Da janela do meu quarto é impossível ver o mundo. Da janela do meu quarto a vida parece um filme. Da janela do meu quarto o meu filme está parado. Não consigo ver a actriz principal da janela do meu quarto. Gostava de conhecer o mundo. Não consigo falar de mim. Não me conheço. Não conheço o meu mundo. O meu mundo é um universo de mundos. Pareço tão presunçoso a falar de mim. Detesto falar de mim. Hoje sinto-me o Pedro. Amanhã talvez me sinta o Miguel. Há um Pedro que escreve, dentro de mim. Há um Pedro que detesta as mulheres. Há um Pedro que ama as mulheres. Mas, o Pedro, o universo que une esses mundos, não consegue viver sem as mulheres. Talvez as mulheres não sejam mundos. Talvez as mulheres sejam estrelas. Há um sol em cada mundo. Quem me dera encontrar o meu sol. Detesto falar de mim. Perco-me sempre a meio. É o problema dos mundos. Cada mundo parece infinito. É fácil nos perdermos no infinito. Hoje sou o Pedro, o escritor. Hoje amo as mulheres. Gostava de as ver a acenarem-me da rua. Estou à janela. É difícil falar de mim, quando os outros me cabem na palma da mão.


PedRodrigues

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Sou fã do Ken. Não fosse ele um boneco e seria o homem perfeito. Está casado há mais de cinquenta anos com a Barbie. Sempre de sorriso estampado no rosto. Já não há casamentos assim. O amor tem relógio. O tempo passa e o amor desvanece. Não há Kens na vida real. Já ninguém aguenta cinquenta minutos de sorriso na cara com a pessoa que ama. Quanto mais cinquenta anos. O casamento perfeito que os pais oferecem aos filhos. Passa de geração em geração. Ninguém lhe liga. Mas, para mim, o Ken é o protótipo do homem perfeito. Gostava de ser como ele. Gostava de encontrar a minha Barbie. Cada minuto é uma eternidade. Imaginem cinquenta anos. Não há eternidade quando se ama. Não devia haver um relógio no amor. Cada vez gosto mais do Ken. Nunca se separou da mulher amada. Sempre a sorrir para ela. Já viram como a Barbie parece feliz? Não acredito que seja fachada. Nunca encontrei o amor. Mas acredito que ele existe. Acredito em almas gémeas. Acredito na paridade de tudo o que existe. Se há um Ken, há uma Barbie. Já os amores eternos... Nada é eterno. Mas cada segundo é eterno. Se um dia encontrar a minha Barbie, gostava de morrer de mãos dadas com ela. Não me vejo de outra forma. O amor não envelhece. O amor não sai de moda. O amor devia ser eterno. Gostava de adormecer a sorrir para a minha Barbie. Gostava de acordar a sorrir para ela. Sou mesmo fã do Ken. Passar a eternidade a sorrir. Já não há casamentos assim. Não existem amores eternos. Quem me dera encontrar o amor. Quem me dera que os pais nos ensinassem a amar. Nos ensinassem o segredo dos casamentos de cinquenta anos. Quando for grande quero ser como o Ken: quero ter uma Barbie. Quem me dera sorrir para ela durante uma eternidade. Será que o Ken não se cansa de sorrir? Quem sorri por gosto, não se cansa... Nunca!


PedRodrigues

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Poema número vinte e sete


Soneto da Saudade


Esta dor que vem quando me lembro:
Das vidas enlaçadas em finos linhos,
Do peito cravado por longos espinhos
Do frio que vem nas noites de Dezembro.

E o sol que doirava e agora se esvai…
A rosa que brotava e agora morreu,
A alma que arde, como nunca ardeu.
Matuta-me na cabeça e não me sai.

Tudo é triste e me desassossega…
Tudo é triste e me lembra de ti:
A rosa, o cravo e até o jasmim

Enquanto este monstro em mim impera
Não vejo a hora de chegar meu fim
Não encontro em mim, aquilo que era!

PedRodrigues

Poema número vinte e seis


Ruas da Vida



Ela anda por aí, perdida
Eu procuro e procuro
pelas ruas da vida
e tento não me perder
também eu me sinto
ébrio de whisky ou absinto
ou drogado de amor
E esta ferida que dói
da solidão que corrói
obrigando-me a beber
do fel desta vida
onde ela anda perdida
e eu a tardo encontrar
abrindo a ferida
que me leva de vencida
sem nunca me matar...
pergunto a mim e ao céu
se o problema sou eu
que não fui feito para amar
ou serão as ruas da vida
uma fábula perdida
escrita para nos desencontrar?



PedRodrigues

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Estive a sul do Paraíso. Não gostei. Vi uma rapariga com quem partilhei bons bocados no sábado. Aqueles olhares. Os toques. A dança. Os olhos fechados, a ouvir a música. Hoje estava com outro. O pior eram os olhares de escárnio. A rejeição torna-se em tortura. A sul do Paraíso é assim. Até a água se torna em veneno. Não a quis. Agora ela esfrega-me outro na cara. Aposto que é menos interessante que eu. Os meus amigos diziam que ele parecia um bocado labrego. Todos somos assim. Quando estamos de fora, os outros nunca nos chegam aos calcanhares. Mas a verdade é que quem está no Paraíso são eles. Quem me dera provar a maçã. Todas as mulheres têm uma Eva dentro delas. Quem me dera ter um Adão dentro de mim. A verdade, é que estou mais vezes a sul do Paraíso. Se já pisei o Paraíso não me lembro. Mas já estive nas nuvens. Será que há maçãs no Paraíso? Gostava de provar. Dizem que é o fruto proibido. A mim, parece-me um fruto impossível. Adorava provar as maçãs do Paraíso. Detesto viver pelas regras. De me sentir com pudor. A sul do Paraíso até a chuva queima. A sul do Paraíso não devia existir pudor. Mas a sul do Paraíso até os olhares matam. Adorava esquecer a rapariga. Mas o sorriso dela não me sai da cabeça. Detesto sentir-me assim. Deslocado. Quem me dera amar do lado direito. Às tantas, a sul do Paraíso ama-se mesmo do lado direito. Às tantas eu não amo. Nunca amei. Mas sinto-me mal na mesma. Não entendo. Quem me dera provar a maçã. A sul do Paraíso, a Eva é puta. Os sorrisos matam. Realmente, não sou herói. Os heróis estão no Paraíso...


PedRodrigues

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Desde miúdo que a minha mãe me diz que sou filho da noite. Gosto da noite. Gosto do silêncio. Gosto de ter tempo para mim. Gosto de me ouvir. Que silêncio. Sou um sonhador. Desde miúdo que via coisas onde mais ninguém via. Que fazia naves com os Legos. Robôs que se montavam e desmontavam. Mais ninguém os via. Só eu. Ainda hoje vejo coisas que mais ninguém vê. Perco-me a imaginar. Já me chegaram a dizer que o meu mal é pensar muito. Não penso muito. Penso o suficiente. Devem ser daquelas coisas que mais ninguém vê. Só eu. Adoro este silêncio. Devo ser mesmo filho da noite. Pobre mãe, a minha. Ter que me dividir com a noite. Não devemos dividir quem amamos. Desculpa mãe. Mas, gosto mesmo da noite. Todos os gatos são pardos, de noite. Não acredito muito nisso. Mas, eu vejo coisas que mais ninguém vê. Vejo-me a ter um futuro brilhante. Sol, livros, mar, amigos... Sem preocupações. Já ganhei mais de mil vezes o Euromilhões, na minha cabeça. Já visitei o mundo. Sou um escritor publicado. Todos me conhecem. Amado por uns, odiado por outros. Na minha cabeça sou isto tudo. Adoro este silêncio. Dá-me vontade de escrever. Já devia estar a dormir. Amanhã não tenho aulas, mas devia estudar. Não estou preocupado. O Euromilhões está a um pensamento de distância. Gostava de encontrar esta menina que trago na cabeça. Tem um bocadinho desta, um bocadinho daquela, o feitio desta, o estilo da outra... Deve ser mais fácil ganhar o Euromilhões. Se as mulheres fossem como os Legos. Sempre fui fã dos Legos. Montar, desmontar. O meu passatempo favorito. Se as mulheres fossem assim. Uma peça duma, uma peça doutra... Já está ! Adorava montar a mulher perfeita. A perfeição não existe. Não existem mulheres ás peças. Ainda bem que sou filho da noite. Adoro este silêncio. Ajuda-me a perceber que a mulher perfeita está a um pensamento de distância.


PedRodrigues

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Hoje não sei que escrever. Apetece-me falar dos meus amigos. Do quão importantes são. Aqueles "tais" que estão sempre lá. Que já me viram com a cara no chão. Que sabem quem sou. Gostava de lhes dizer como gosto deles. Mas não o consigo meter por palavras... Apetece-me falar do tempo. Continua agreste. É mais fácil falar do tempo. Chuva, vento e frio. Eis o resumo. Só é pena não conseguir escrever assim quando o assunto são os amigos. Tenho medo de errar. De ficar algo por dizer. Sei que me perdoam. Mas eu não me perdoo. Quem me dera que a vida tivesse um guião. Que alguém tivesse escrito o que sinto. Eu não entendo o que sinto, por vezes. Gostava de aprender a dizer o que sinto. Isso não se aprende na escola. Não vem nos livros. Nem se arranjam amigos nas páginas dos livros. Gostava de conseguir dizer "eu amo-te". Não é fácil. Prefiro usar o genérico: "eu gosto muito de ti". Também acho piada ao genérico, do genérico: "adoro-te". É por isso que tenho medo de falar dos meus amigos. Parece tudo tão falso. O genérico é a versão barata. Mas não consigo usar o original. Prefiro guardar cá dentro. Aqui ninguém me rouba. Gostava que eles soubessem que os amo. Gostava de o conseguir dizer. Mas tenho medo de ser roubado. Deixo ficar cá dentro. Como é fácil falar do tempo. Não há cinismo quando se fala da chuva. Detesto este tempo. Já acreditei mais que o mundo não ia acabar. Talvez acabe. Nada é eterno... Só gostava de poder dizer aos meus amigos como gosto deles. Já que estou no corredor da morte, este é o meu último desejo. Será que a vida não tem um guião? Ás vezes sinto-me uma personagem dum drama. Quem escreveu isto tem mesmo mau gosto. Ou serei eu que não entendo as deixas?


PedRodrigues

domingo, 5 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Hoje bebi uns copos e fui passear pela noite. O tempo está agreste. Eu não estou melhor. Detesto estas noites de copos e mulheres. Vejo interesse de ambos os lados, mas... Não sou fã de "one-night stands" . Sou fã do sexo oposto. Mas não sou fã de chegar, ver e vencer. Já lá vai o tempo das cruzadas. Gosto das trocas de olhares. Gosto de lhes sentir o interesse. Gosto de me sentir desejado. Detesto não me sentir amado. Detesto ser gato, detesto ser rato... Que seja homem e que ame como um homem. Que seja homem e que seja amado como homem. O tempo continua agreste lá fora. Tal como eu. Não me sinto melhor que o tempo. Vinha no táxi a falar com o senhor taxista. Hoje as mulheres são mais dadas. Foi esta a conclusão a que chegámos. Pensei para mim: não são só as mulheres. O amor já lá vai. Eu também o vi, mas não agarrei. Já lá vai bem longe... Hoje, uma noite chega. Já não há amores agrestes como o tempo. É pena. Se o amor hoje fosse tão forte como as rajadas de vento... As mulheres não eram tão dadas, nem os homens tão oferecidos. Todos somos putas do amor. Eu sou uma puta do amor. Peço desculpa pelo termo. Mas eu pagava para o experimentar. Estou farto de "one-night stands"... Pagava para que os olhares fossem "eu amo-te" de graça. Já lá vai o tempo dos amores agrestes. Já lá vai o tempo em que o pai amava a mãe. O meu pai ama a minha mãe. Tenho inveja disso - ás vezes. É saudável esta inveja. Só tenho pena de não ter aprendido com os mestres. Talvez estivesse distraído com o vento, ou com a chuva. O tempo está mesmo agreste. Estava-se bem no Duplex. As mulheres e o calor humano... Se o tempo lá fora deixar, adormeço a pensar nesta noite. Será que algum dia encontrarei um amor agreste como este tempo ? Gostava de amar agreste como o tempo. Gostava que o amor fosse como a chuva. É impossível passar entre os pingos...


PedRodrigues

sábado, 4 de dezembro de 2010

Poema número vinte e cinco

O tempo é só tempo...

Devagar encontro-te no tempo
Em que o tempo era a luz do sol
Em que as areias eram tempo
E o tempo corria devagar
O nosso amor era tempo
Que teimava em não passar
A cada passo, um momento
Em cada momento, um olhar
Devagar, com o vento
Sentíamos o tempo mudar
A cada beijo um momento
Que fazíamos durar
Mas, devagar, o tempo
Teima em passar
Até o sol tem um momento
Em que deixa de brilhar
Enquanto sentires o vento
Soprando devagar
Entenderás que o tempo
Foi criado para eu te amar

PedRodrigues

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Apetece-me matar o Cupido. Com uma seta no coração de preferência. Será que se ele provar do próprio veneno, aprende de vez que os romances modernos não têm piada? Já não há paciência para os beijos na rua e as mãos dadas. Está frio, arranjem um quarto. Maldito Cupido e malditas setas. Será que não se esgotam? Deve-se estar bem lá para o Brasil. Agora é verão por lá. Os romances têm mais piada à beira mar... O calor expande os corpos, mas também me expande o bom humor. O inverno não tem piada. Alguém acha piada a uma árvore despida? Eu não acho... Mas gosto de ver as raparigas semi-nuas no verão. Estranho, quase paradoxal. A culpa deve ser do Cupido. Nunca amei ninguém. Será que ele tem má pontaria? Não deve ter. A julgar pela quantidade de casalinhos que aparecem todos os dias. Deve ser moda. Estarei eu fora de moda? Ou será que o Cupido não gosta de mim? Ele que me arranje uma seta e me empreste o arco, eu procuro por aí... O amor pode estar ao virar da esquina, mas já atravessei tantas esquinas e nunca dei por ele. Às vezes sinto umas picadas no peito, quando vejo uma rapariga bonita. Às vezes as picadas são mais fortes, quando a rapariga é interessante. Será que o Cupido tem uma espada? Será por isso que me apaixono a cada dez minutos? Nunca me apaixonei por dez anos... A culpa é da espada do Cupido. Não deve ser tão letal como as setas. Às tantas tem de a afiar. Ele que venha comigo para o Brasil. Pode ser que lá eu esteja na moda. Pode ser que encontre o amor à beira mar. À beira mar não há esquinas. Às tantas o amor não está ao virar da esquina. Às tantas o Cupido não tem culpa. Dificilmente se acerta em algo que não se vê. Cada seta é um tiro de sorte. Antes do virar da esquina ninguém vê ninguém. Talvez o amor seja sorte, e os romances modernos sejam prémios da lotaria. Talvez a culpa não seja do verão, do inverno, das árvores despidas, ou dos corpos despidos... Talvez a culpa não seja do Cupido. Mas, mesmo assim, apetece-me matar o Cupido com uma seta no coração. Talvez a culpa não seja dele, mas estou certo que minha não é de certeza!


PedRodrigues

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Poema número vinte e quatro


Cemitério de Beijos



Um cemitério de beijos
Onde enterro desejos
E tudo aquilo que passei…
Onde mato saudades,
Onde ouço verdades
Das pessoas que amei.
É aqui que reflicto,
Se o Amor é um mito
Ou pura ficção…
É aqui que acredito
Que aquilo que sinto:
Não é Amor, mas Paixão
É onde penso nos lábios dela
No seu corpo de donzela
E no toque de sua mão.
Neste cemitério de beijos
Onde realizo desejos
Sonho para ela regressar…
Sonho que um dia
Tudo isto foi fantasia
E ela nunca deixou de me amar!



PedRodrigues