segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que os meus olhos vêem quando olho para ti

Lembro-me da Sofia na varanda a pintar o sol numa tela. Conseguia captar-lhe a alma, como se falasse com ele, como se soubesse que o nome do sol não é Sol, como se soubesse todos os seus segredos. Sempre a conheci assim. Sempre teve uma capacidade inexplicável de ler as pessoas, de sentir as coisas, de falar com o abstracto, uma habilidade incrível de me despir, de me desarmar, de me amar de olhos fechados. Ao passo que eu sempre me senti miudinho ao pé dela. Dava-lhe a mão à espera de sentir o que ela sentia, de amar o que ela amava. Olhava para ela e tentava ver-me na luz dos olhos dela, tentava ver as coisas com os olhos dela. Por vezes, ensinava-me a amá-la, à socapa, sem eu entender. Dizia-me

-Vês?

Baixinho, ao ouvido. Não via. Fingia uma e outra vez e acabava por errar novamente. Enquanto ela continuava com a lição, repetia a matéria, ensinava-me: sinais atrás de sinais. Então, um sorriso. Novamente

-Vês?

(-Agora vejo)

Numa calma tão leve como o ar, numa luz tão quente como a luz do sol. Dançava com as horas, dançava com os ponteiros do relógio ao sabor das horas. Até que um dia deixou de dançar. Encostou-se a um canto da casa, dobrada sobre si mesma. As janelas fecharam-se, as portas fecharam-se, as luzes fecharam-se, ela fechou-se. Desapareceu. Ficou tão pequena que desapareceu. A minha mão na mão dela e ela não crescia. Os olhos dela deixaram de ser olhos, um poço de lágrimas que desciam em cascata pelo pescoço, gemidos e gritos entre gritos e gemidos. Ela dobrada sobre si mesma a baloiçar. Onde estava o vento que a fazia baloiçar? Fitava o chão à procura do cotão perdido pelo soalho, a ver as migalhas nas alcatifas. Será que ela via as migalhas nas alcatifas? Uma dose de anti-depressivos e ela adormecia. Encaracolada na cama até começar a espernear com os pesadelos. A boca descolorada, branca dos depósitos de saliva das palavras que pronunciava baixinho. Será que me dizia

-Vês?

Eu via, mas era como se não visse. Nunca consegui partilhar da habilidade dela. Não via. Ela baloiçava e eu não via, ela pedia a morte e eu não ouvia, ela chorava e eu perguntava-me de onde vinham as lágrimas, até que o Natal chegou e eu saí de casa em busca de respostas, ou de algo que trouxesse a luz de volta. Vagueei pelas ruas entre mendigos e pescadores de ilusões. Vi a capacidade de amar que as pessoas desenvolvem nesta altura. No Natal amamos de uma forma desumana, gastamos todas as calorias que vamos recolhendo ao longo do ano. O nosso coração deixa de funcionar a trinta por cento e amamos: amamos com o coração, com os pulmões, com o estômago. Encontramos uma luz em nós que se apaga em todos os outros dias, o sol que brilha com essa luz reflecte-se numa ténue vidraça que nos separa do nosso próprio cinismo. Se fossemos verdadeiramente formatados para amar de uma maneira incondicional, essa luz nunca se apagaria. No entanto, sofremos em silêncio, num vazio que nos consome, numa escuridão imensa - como a escuridão nos olhos da Sofia - à procura de uma luz que só se acende uma vez por ano. Vamos amando por obrigação. Porque se não amarmos, não somos amados, se não formos amados estaremos condenados a partilhar o nosso vazio connosco mesmos, e a escuridão parece mais pequena quando é partilhada com alguém. Tocamos uns nos outros à procura de uma mão que nos guie. Se essa mão não chega: paramos. Somos estátuas de pedra numa fonte onde o sol não brilha, à espera de uma esmola que nos liberte da solidão. E então, o que faremos quando o pouco se tornar insuficiente? O que faremos quando o pouco se extinguir? O que nos fará continuar? Pergunto-me se a Sofia não esperará pela minha esmola. Nunca a soube ler como ela a mim. Ainda a vejo no escuro a olhar-me de soslaio

-Vês?

(-Afinal o que queres que veja? Penso para mim)

Custa-me ser maior que tu. Juro que me custa ser maior que tu. Tenho saudades de quando era eu a sentar-me no escuro a baloiçar com o vazio da casa, de ouvir a leveza das tuas palavras de papel vegetal, pelo menos tu sabias ler-me como um livro. Sempre soubeste ler-me como um livro. Se eu te dissesse

-Vês?

Tu, sem rendilhados e mentiras

-Sim, vejo

(-Amo-te)

E o sol, na vidraça, a brilhar.

PedRodrigues

domingo, 18 de dezembro de 2011

Cinco minutos

Se há coisa que me assusta é a morte. Não a minha. Assusta-me a morte daqueles que amo. São poucos. Se quisesse, aposto que os conseguiria contar pelos dedos. Estes mesmos dedos que tremem de cada vez que penso nisso: folhas outonais a tremelicar com o vento. Enquanto vou escrevendo esta crónica, o meu avô vai dormindo no sofá ao lado. É por ele que os meus dedos vão tremendo – cada vez mais. A morte da minha avó deixou em todos nós um enorme vazio. Deixou o meu avô a viver pela metade. Todos os dias ele vai morrendo mais um bocadinho. E todos os dias eu vou pedindo que a morte me dê mais cinco minutos com ele.
Acredito que as pessoas não vejam, que digam que ele está com o aspecto de um jovem, mas eu sei que ele vai morrendo por dentro, todos os dias. De cada vez que acabo um abraço, já sinto saudades dele. De cada vez que acaba um aperto de mão, já sinto saudades dele. De cada vez que lhe digo até amanhã, a saudade mata-me um bocadinho. Um ácido em forma de adeus, com vontade que seja um até já. Sempre foi um até já. Nem sempre será um até já. Um dia os cinco minutos acabarão e o meu corpo irá congelar novamente. Ainda me lembro do dia em que a avó morreu. Todos nos lembramos do dia em que a avó morreu. Há metades que não partem, memórias que nos vão prendendo as metades ao mundo. A metade da avó continua viva. Uma chama miudinha no nosso corpo a arder num vazio que um dia será só mais um vazio. Quem ama, ama com o coração de fora. Deixa esse vazio no peito para guardar as metades de quem ama. É assim que se ama. E é assim que eu amo o meu avô. Apesar da teimosia crescente com a demência da idade, do feitio vincado por uma vida de sacrifício, da mentalidade estagnada no tempo: amo-o de uma forma incondicional e inexplicável. Guardo cada momento numa eternidade que sei não nos pertencer. Guardo-o num sítio onde o tempo não é tempo. Onde nada é para sempre, mas vai sendo. Guardo-o no mesmo sítio onde guardo a avó. Olho-o sempre com a mesma atenção: à lupa. Decoro cada ruga, cada calosidade, cada pêlo, cada fio de cabelo. Se fechar os olhos nesse instante vejo-o da mesma forma. Abraço-o sempre da mesma forma, com toda intensidade: até que a minha pele já não é a minha pele: uma ponte que nos liga. Sinto na minha espinha os arrepios dele. Sinto nos meus dedos as chagas de uma vida. Sinto nos meus olhos as lágrimas que ele chorou no dia em que a avó partiu. Então choro com ele. A minha pele na pele dele e eu choro. As minhas mãos nas mãos dele e eu choro. O meu coração a bater por ele e eu choro.
Sei que hoje, enquanto dorme no sofá, ele é um avô orgulhoso. Quero dar-lhe uma última alegria. Só uma última alegria. Um dia ele partirá e eu ficarei a viver pela metade. A morrer todos os dias mais um bocadinho - um bocadinho maior todos os dias. Até que um dia vão olhar para mim e vou ser apenas um farrapo – com bom aspecto - a ser levado pelo vento. Enquanto ele me olha do sofá, eu vou sentindo saudades dele. Uma lágrima desdenhosa vai-me caindo dos olhos. Enquanto a limpo vou pedindo que a morte me dê só mais cinco minutos com as pessoas que amo.

PedRodrigues

sábado, 10 de dezembro de 2011

A língua morta que Camões fala

Somos o que restou do divórcio: eu – ou o meu resto – e o Camões. Somos os despojos de uma guerra que se prolongou durante dezasseis meses. Dezasseis meses que mais pareceram uma vida. Foram uma vida. Agora olho-me ao espelho e não me consigo ver. Os meus olhos não são os meus olhos, são outra coisa qualquer: berlindes lascados e gastos, sem o brilho de outros tempos. Rugas atrás de rugas, chagas atrás de chagas. Há meses que não meto os pés no barbeiro - eu que ia lá todas as semanas. O meu cabelo já sente saudades do pente e da tesoura. A minha barba deve estar a pontos de cortar as lâminas. E assim vou vagueando, moribundo, pela vida. A passear o meu cadáver pelos espelhos. Nesta casa em que – agora - apenas vivo eu e o Camões. Um dia foi uma casa feliz, cheia de quadros, fotografias, flores, cheiros, pessoas e barulhos. Hoje é um frasco vazio: frio e sem vida. Nem a viola toca. Como tenho saudades da viola a tocar nas mãos da minha filha Leonor. A casa enchia-se de vida: as paredes cantavam com ela, em coro. Que saudades de abrir a porta e sentir o cheiro do jantar ao lume. De despir o casaco, pousar a mala e vestir o avental. Provar a comida na colher de pau e na boca da minha mulher

-Um bocadinho mais de sal, Ana

Enquanto ela tratava da salada. A Leonor na sala a tocar e o Camões na cozinha, a miar por uma migalha do jantar. Um dia foram tempos felizes, hoje são só memórias felizes que me assombram sempre que me sento no divã da sala a corrigir os trabalhos dos meus alunos: de caneta numa mão e copo de gin na outra. Dou aulas de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras há mais de vinte anos. Os alunos sempre gostaram de mim, – ou pelo menos faziam-me crer que sim – mas desde o divórcio que começaram a olhar para mim de forma diferente. Vejo-os a julgarem-me com o olhar. Não sei se pelo aspecto moribundo que trago, – a tez amarelada, o rosto cansado e as roupas mal engomadas - ou se pelo facto de toda esta catástrofe em que a minha vida se transformou ser o resultado do caso que tive com uma aluna há uns anos. Não sei. Sei que me olham de maneira diferente, embora, para mim, eles continuem iguais. Continuo a sorrir-lhes calorosamente, mesmo quando a minha vontade é esquecer de como se sorri. Continuo a tirar-lhes as dúvidas, mesmo quando são ridículas e a minha vontade assassina me começa a ferver nas veias. Continuo a pensar que são só miúdos, com tempo para crescerem e para aprenderem, embora no meu âmago eu saiba que eles são a gasolina que faz arder páginas de história do nosso país, a saliva gasta desta língua que Camões imortalizou, a geração dos incultos com canudo, uma bomba de erros ortográficos e textos abreviados numa protolíngua que nos aproxima cada vez mais dos dialectos dos homens das cavernas. Apesar de tudo, sorrio-lhes. Faço o meu papel de professor. O único papel que me resta, já que em todos os outros fracassei. Restam-me apenas os trabalhos, o gin e o gato. As sobras dum erro que me continua a perseguir todos os dias. Um erro com dezanove anos – agora que penso: quase a idade da minha filha – de curvas joviais e decote provocante, de discurso eloquente e sorriso fácil. A pedir-me

-Tem um tempo, professor?

Sem erros ortográficos. Sem cuspir na gramática. A pele a pedir-me encarecidamente que lhe inspeccionasse a textura de perto.

(Cada vez mais perto, cada vez mais perto)

- O professor é um homem charmoso

Eu a derreter-me

-Não creio que sejam coisas que se digam a um homem casado e com uma filha praticamente da sua idade, Melissa.

O homem casado a sorrir estupidamente com os elogios, como se tivesse novamente vinte anos. A fraquejar no momento em que devia ter sido de ferro. A carne a falar mais alto. Anos de casamento, de amor a uma mulher, deitados fora numas horas de prazer. Nunca me hei-de perdoar. E talvez por não me perdoar, hoje eu seja apenas este cadáver que se movimenta ao sabor das correntes de ar, a vaguear pelos espelhos desta casa vazia. A conversar com o gato, como se fosse um louco num asilo. À espera que me responda

-Um dia fomos felizes, não fomos, Camões?

Enquanto ele me pede uma migalha do meu jantar de microondas. A olhar para mim num tom repreensivo, como que a responder

-A culpa é tua!

Numa língua morta que só eu entendo. A minha carcaça no sofá: de trabalhos numa mão, copo de gin na outra. O gato a miar à minha volta como que a sentir o calor a fugir-me do corpo. Na casa vazia a voz da mulher das televendas ecoa pelo corredor, no lugar do som da viola e da voz da minha filha. O cheiro da comida ao lume degenerou e tornou-se no cheiro a podre da comida do nosso último jantar enquanto família. Ainda oiço, na minha cabeça, as palavras dela

-És um traste!

Ou

-Odeio-te! Nunca mais vais ver a tua filha…

O gato a sentir o amor a despedaçar-se: mil pedaços pela casa. A olhar para nós com desdém. A olhar para mim

-A culpa é tua…

(A porta a bater estrondosamente)

A minha mulher a gritar da rua

-Fica com o gato… Nunca mais vais ver a tua filha!

(De facto, nunca mais a vi.)

Hoje, no divã da sala, o Camões é a minha companhia. A única prova que me resta duma outra vida em que, realmente, fui feliz.

PedRodrigues

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crónica do comboio em marcha lenta

Entrei no comboio perto da hora da partida. Sentei-me à janela e esperei que arrancasse. O sol da uma da tarde batia fortemente no vidro. Dei por mim a encostar a cabeça e a apreciar cada centímetro de calor que me era proporcionado. A vida lá fora continuava igual: as pessoas continuavam iguais; a estação continuava igual; as vontades eram as mesmas, assim como as obrigações. Sempre me intriguei: qual será o motor que move as pessoas? Nunca entendi se nos movemos por vontade, ou por obrigação. E, enquanto o comboio não arrancava, dava por mim a olhar para aquelas pessoas, à procura de uma resposta para a minha pergunta. Afinal, porque nos movemos? 
Abri um livro e comecei a ler. Nos espaços entre as palavras ia olhando à minha volta. Levantava timidamente a cabeça do fundo das frases e olhava. Olhava só por olhar - para não me sentir sozinho durante a viagem. Nos bancos à minha direita estava uma rapariga de cor. Tinha pedido a um rapaz que tinha entrado comigo na carruagem para a ajudar a arrumar a mala. Trazia uma vida naquela mala – imaginava eu. Um peso demasiado excessivo para os braços dela. Uma vida – pensava eu. Enquanto lia mais uma frase e me inquietava com o conteúdo da mala. Acreditava que era o jazigo de cadáveres de vidas passadas. Ou um museu de recordações de outros tempos: talvez felizes, talvez tristes. Quem sabe? Talvez ela estivesse a fugir de outra vida. Infelizmente para ela: o futuro traz a bagagem do passado. No entanto, ela não aparentava importar-se com isso: sentou-se no lugar e adormeceu. Também eu adormeci. Fui-me deixando envolver pelo calor do vidro e fui dormindo devagarinho: um sono de cada vez. Enquanto dormia o comboio avançava pelas estações. Acordei com o barulho de um grupo de rapazes que se encontrava a meio da carruagem. Soltavam para o ar piadas sem conteúdo. Procuravam uma esmola em forma de sorriso que tardava em aparecer. Penso que continuam à procura, talvez noutra estação, ou noutra carruagem. Aposto que ela anda por aí na boca de alguém. Há uma esmola em forma de sorriso destinada às piadas sem conteúdo de cada um. Eu acreditava nisso – ainda hoje acredito. Cada vez mais acredito.
Na janela, as paisagens eram quadros esborratados, as pessoas não eram pessoas e o meu reflexo era só um reflexo: uma imagem parada no tempo – de quem eu era, de quem eu sou, de quem eu poderei vir a ser. Procurava uma ruga de expressão (já que as rugas de idade não parecem passar por mim). Procurava-me ao espelho. Procurava por uma resposta. Era eu, no meio da vaidade dos meus olhos. Ajeitava o cabelo, mexia na barba e pensava. Ainda não sabia qual era o motor que me movia. Não sabia qual era o motor que movia as pessoas. O comboio avançava nos carris a uma velocidade que esborratava a paisagem e as pessoas. Só o meu reflexo se mantinha intacto entre as estações. Só eu continuava o mesmo no meio da velocidade.
Então o comboio abrandou a marcha e o meu reflexo no vidro deixou de ser só um reflexo. A paisagem deixou de ser uma sequência de cores e formas desfocadas. As pessoas começavam a parar nos passeios numa estranha calma que não julgava possuírem. Dei por mim a sorrir para um miúdo que esperneava freneticamente enquanto tentava que a mãe lhe largasse a mão siamesa que teimava em aprisioná-lo. Num banco um casal trocava carícias tímidas às escondidas dos olhares desdenhosos do público presente – eu incluído. Não os invejava. A minha cabeça colada no vidro parecia não ter vontade nenhuma. Só os olhos se mexiam. Só a imaginação funcionava. Imaginava para onde iam aquelas pessoas. Se eram movidas pela vontade, ou pelo destino. Imaginava. E, quanto mais imaginava, menos invejava o casal do banco. Quem me garante que aquele não seria o seu último beijo?
Cheguei ao meu destino à hora marcada. Saí do comboio sem pressa alguma. Pousei o meu pé direito no chão. As pessoas eram só pessoas. Não sabia qual era o motor que as fazia deslocar. Ainda hoje não sei - e isso pouco importa. Não interessa o motor que nos faz deslocar. Não interessa a que velocidade nos deslocamos. Interessa onde chegamos: a última estação. Tudo o resto é um quadro esborratado que um dia será paisagem.

PedRodrigues

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Este fumo miudinho de que sou feito

Sempre pensei que quando passasse dos sessenta os dias iriam tornar-se mais curtos. Que o relógio se  esqueceria dos segundos e dos minutos, de forma que as sete da manhã se confundiriam com as sete da tarde e os dias passariam por mim a uma velocidade de carro de corrida. Reformei-me por volta dos sessenta e cinco anos e os dias continuaram iguais. Nada de novo a não ser mais umas dores nos joelhos, mais uma ou duas rugas na cara, um aumento considerável de idas à casa de banho, os óculos – que tive de trocar, visto que as letras do jornal me começavam a fugir, novamente – e pouco mais. A minha mulher continuava na mesma. As pessoas na rua diziam que os anos não passavam por ela. Eu achava que passavam, mas esqueciam-se de lhe levar a juventude. Estávamos juntos há quarenta e oito anos e ela continuava tão bonita como no dia em que a conheci. Casámo-nos jovens e aos vinte anos já tínhamos dois filhos. Nunca amei mais ninguém na minha vida. Reparti o meu amor pelos três e nunca desperdicei um pingo que fosse fora de casa.
Amei a minha mulher até ao dia em que partiu. Tinha setenta e seis anos quando ela me foi roubada. Lembro-me desse dia todos os dias - quando me levanto da cama e rumo ao cemitério para visitar a campa onde ela jaz. Lembro-me dos beijos dela de todas as vezes que beijo a fotografia que está na lápide. Uma lágrima desdenhosa acaba sempre por aparecer. Uma lágrima que não sei de onde vem. Talvez venha deste fumo miudinho de que sou feito. Deste resto de fogo que, hoje, aos oitenta e dois anos, arde cada vez com menos fulgor. Roubaram-me a minha chama e todos os dias me pergunto onde arranjo forças para me levantar da cama. A verdade é que me levanto e ela não está. E as horas, que deveriam passar por mim a uma velocidade de carro de corrida, continuam a passar ao mesmo ritmo penoso, tornando cada vez mais densa a solidão.
Os meus filhos ligam-me todos os dias. Costumam aparecer de vez em quando cá por casa com as mulheres e os miúdos. Lá me vão dizendo

-O pai não quer vir viver connosco?

Eu finjo-me de desentendido e mudo logo de assunto. Prefiro ficar por aqui. A dormir na mesma cama onde, outrora, dormia a única mulher que amei. E no entretanto entre o sono e a solidão vou-me entretendo a limpar a casa, a tratar do jardim, a ler uns livros e as notícias no jornal. A dedilhar as páginas à procura de algo interessante no meio do habitual amontoado de sensacionalismo. Algo interessante como estes anúncios nos classificados onde aparecem raparigas nuas. Onde cada imagem se torna uma tentação. Cada anúncio torna essa tentação maior. Fui homem de uma só mulher. Nunca estive com mais ninguém. Nunca desejei estar com mais ninguém. Mas a solidão tem-me consumido o corpo e a alma. Sinto falta do aroma de uma mulher. Das curvas suculentas e da suavidade das carícias. Talvez sejam os delírios de um velho viúvo a falar mais alto, mas preciso de me sentir amado uma última vez.

(Pego no telefone e marco o número de um anúncio aleatório)

-Estou sim?

Uma voz de seda vai-me respondendo do outro lado. A certa altura eu

- Se nos pudéssemos encontrar para conversar. Só para conversar.

A voz de seda a responder-me do outro lado

-Só para conversar?

Eu já não tenho idade para muito mais. Não tenho idade para aquilo que está a pensar. Além disso, fui homem de uma só mulher e a minha chama morreu com ela. Só preciso de me sentir amado uma última vez.

-Se me puder dar a mão, agradecia. E se me puder acariciar a cara ficaria eternamente grato.

Marquei o meu último encontro para as quatro da tarde num café perto de casa. São três da tarde e o relógio teima em não apressar as horas. Visto-me a rigor e faço-me ao caminho. No cruzamento entre o café e o cemitério volto para onde me leva o coração. São quatro horas e eu estou a beijar a fotografia de quem ainda amo. Há amores que duram uma vida e o nosso ainda vive comigo. Espero que a senhora da voz de seda não fique zangada. Eu sei o que custa esperar por alguém que nunca vai aparecer.

PedRodrigues

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A solidão cheira a maçã e canela

No outro dia comprei uma vela com aroma a maçã e canela. Queria que a casa esquecesse o teu cheiro. Queria que as paredes deixassem de sentir a tua falta. Queria que as marcas do teu corpo, no divã da sala, desaparecessem. Queria que te fosses embora das fotografias. Que parasses de me abraçar naquela em que estamos juntos a ver o pôr-do-sol. Que te levantasses e te fosses embora para sempre. Que me deixasses sozinha, como me deixaste na vida real. Deixavas-me a sorrir, como uma parva. E, pé ante pé, lá te ias afastando. Enquanto eu, feita parva, sorria para o pôr-do-sol.
Faz hoje um mês que me disseste

-Não consigo mais

Uma falta de ar, subitamente, no meu peito. Ainda me lembro daquele nó na garganta, daquele sorvedouro no estômago. Uma agonia imensa. O cheiro a cebola queimada – estava a fazer-te o jantar. Não era o teu prato favorito, mas estava a fazer-te o jantar. Entraste pela porta e nem me deixaste dar-te um sorriso. Nem um beijo me deste. De certo que seria o último, mas pelo menos ficava-me marcado nos lábios. Pelo menos ia-me ficando de lembrança, visto que não me lembro do nosso último beijo – e isso pouco importa. Deixaste-me, é um facto. Deixaste-me a mim e à casa e aos móveis. Foste-te embora sem te despedires. Pegaste nas chaves do carro e

-Não consigo mais

Foste embora. Fechaste a porta atrás de ti e aposto que nem olhaste uma última vez para mim. Eu ali, no meio dos tachos, das facas, dos condimentos, das cebolas, a chorar. Lágrima atrás de lágrima, enquanto me perguntava se a culpa teria sido minha. Se a razão de teres ido embora e não conseguires mais seria eu. Nem um último olhar me deste. Deixaste-me enquanto me afogava em mim. O pior não tinha sido ver-te partir, o pior era não saber por que razão partias. No entanto, nunca olhaste para trás. Nem uma última explicação me deste. Nem um último beijo me deixaste. Nem um último abraço onde me pudesse agarrar enquanto me deixavas. Nada.
Lembro-me tão bem de quando o telefone tocou nesse dia. Tinha estado mudo até àquela hora. Corri para ele na esperança de ouvir a tua voz

-Desculpa…

Mas a tua voz não apareceu do outro lado. Só uma voz que não era a tua. A mesma voz que me acompanhou na altura em que fui reconhecer o teu corpo encarcerado no carro. Ao que parece embateste contra um poste. A polícia disse-me que o excesso de velocidade e o piso molhado foram as causas do acidente. Mal sabem eles que a culpa não foi da velocidade ou da chuva. Eu sei que me querias abraçar uma última vez. Aposto que te deixaste levar pelo momento. Que pisaste no acelerador fervorosamente, tal era a pressa de me abraçares. E na tua cabeça abraçaste-me. Enquanto os teus braços se incrustavam entre o carro e o poste, na tua cabeça abraçavas-me. Também eu te imagino a abraçar-me

-Desculpa… Não chores. Foi um impulso, mas já passou. Vou amar-te para sempre.

Um abraço tão forte. O calor do teu peito a evaporar-me as lágrimas. Imagino-te a entrar em casa com um ramo de flores na mão. Enquanto eu te faço o jantar: o teu prato favorito.
Hoje tu não estás por cá. Comprei uma vela para te empurrar para fora de casa. As paredes sentem a tua falta. Eu sinto a tua falta. Continuas abraçado a mim no retrato, mas os teus braços não me aquecem e estamos em Novembro. Foste embora e nem levaste um agasalho. Será que não tens frio? Na minha cabeça ainda te vejo a entrar pela porta, com o tal ramo de flores. Encharcado e com frio. A dizeres-me

-Vou amar-te para sempre…

E, se era para sempre, porque me deixaste? Ainda hoje me pergunto. Hoje que tomei a caixa inteira dos anti-depressivos e a casa me começa a fugir. Um nevoeiro imenso e eu vou-te procurando, aos apalpões. Ainda hoje me pergunto: porque me deixaste? Um frio cada vez mais intenso no meu corpo. Onde estás? Abraça-me. Afinal, ninguém é para sempre. Afinal, nada é para sempre.

PedRodrigues

sábado, 12 de novembro de 2011

Croniquinha de trazer por casa

Amo-te devagarinho. Não sei como, mas amo-te. Vou-te trazendo pela casa: uns papelinhos na parede; umas calças do teu pijama pelo chão; umas folhas soltas de outros textos que te escrevi; o teu corpete numa caixa de sapatos, por baixo da televisão; o teu cheiro pela casa, desde o quarto até à porta da entrada; o teu batom na mesinha de cabeceira; e eu que te trago na minha cabeça. Que te trago nas minhas mãos, nos meus cabelos, aqui e ali pelo corpo. Uma marca mais bruta e outra mais suave. Vou-te amando devagarinho. Para quê acelerar?
Vou-te perseguindo pela casa

-És tão bonita

Vais-me sorrindo devagarinho. Os teus lábios não têm pressa. Os teus dentes não têm pressa. E eu aqui: a amar-te devagarinho pela casa. A procurar-te pelas esquinas de cada divisão. Um brinco na almofada. Umas cuecas no guarda-roupa. Eu deitado na minha cama a falar contigo ao telemóvel

-Tenho saudades tuas

Tu

-Estou quase a chegar

Mas ainda demoras e eu vou-te procurando pela casa, sem pressa. Numa calma inexplicável, enquanto vou dedilhando mais uma crónica pequenina de trazer por casa. Vou-te relendo nos meus textos. Vou-te aperfeiçoando em cada um. Nunca consigo escrever-te como tu mereces. Falta-me sempre aquela palavra. Falta-me sempre aquele bocadinho. Então vou esperando que apareças pela porta: de casaco branco com pêlo de ovelha – não sei dar o nome às coisas, como tu. Vestido verde e meias pretas. Com o cabelo solto, ou apanhado. A entrares devagarinho pelo quarto, enquanto eu te vou admirando e procurando aquela palavra que me vai faltando. Deitado na minha cama, ou sentado pelo chão. A olhar-te de alto a baixo. À procura de todos os pormenores que me permitam fazer-te melhor nos meus textos. Ou fazer os meus textos melhores para a tua pessoa. Vou-te olhando, vou-te lendo, e sempre que o faço, vou-te amando, cada vez mais, devagarinho.

-Estou a chegar. Abre a porta

O barulho do elevador a ecoar pelas escadas. Vou-te sentindo pela casa, mesmo antes de entrares. Vais-me dizendo olá pela casa. Nos papelinhos que me deixas na parede. Na roupa que deixas espalhada pelo chão do quarto. Nos cabelos que vais deixando nas almofadas. Nas crónicas que te escrevi e vou escrevendo na minha cabeça. No teu perfume que se vai passeando pela casa. Nas marcas que me vais deixando no corpo: umas mais brutas e outras mais suaves. E então eu vou-te amando devagarinho. Não sei como, nem porquê. Vou-te amando devagarinho, mas não te digo. E tu vais-me ficando pela casa. Vais-te deixando ficar pela casa. Porque também me amas devagarinho e nem quando partes me consegues largar.

PedRodrigues

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não sei se sabes, mas...

A minha cama torna-se imensa quando não estás. Às vezes, acordo de noite e procuro-te na almofada ao meu lado. Nada. Abraço-me ao teu cheiro e aos cabelos que me deixas na cama. Tenho pena que eles não me aqueçam. Adoro que amenizem o vazio que dorme a meu lado. Sinto a tua falta no silêncio. Sinto a falta do barulho de cachoeira da tua respiração. Dos suspiros nocturnos entre sonhos. Na minha cabeça sonhas comigo. Na minha cabeça adormeço todos os dias ao teu lado: com o teu rosto no meu peito e os teus braços entrelaçados em mim. Não sei se sabes, mas tenho medo de me perder por aqui, sozinho, na escuridão.
Não sei se alguma vez te disse: não há Este, nem Oeste. Há apenas o sítio onde estás quando o sol nasce e o sítio para onde vais quando o sol se põe. Não sei como fazes. Continuo a achar que és o eixo sobre o qual a terra gira. Que as flores na Primavera desabrocham para te dizer olá. E que, a chuva no Inverno cai de veludo do céu, à tua passagem. Gostava de saber se a areia te beija os pés como me beija a mim, ou se também te trata de forma especial, como só tu mereces ser tratada. Gostava de saber como fazes para sorrir da maneira que sorris. O que fazes para me prender a ti como prendes. Não sei onde arranjaste esta corda que me prende a ti. Sinceramente, não me interessa saber. Adoro estar ancorado a ti, ou amarrado, ou incrustado, ou o que quer que seja. Adoro.
Não sei se sabes, mas tenho sono. Este desabafo é só um pequeno desabafo de mais uma noite em que vou procurar-te pelos lençóis. É só mais uma noite em que vou acordar: uma, duas, três vezes. Tu não vais estar. Vão estar os teus cabelos, mas tu não. Vai estar o teu cheiro, mas tu não. A saudade aqui ao meu lado, mas tu não. Volta depressa, no meio do silêncio. Abraça-me com força até acordar. Tenho saudades tuas.

Amor

Volta depressa

Amor


PedRodrigues

domingo, 6 de novembro de 2011

O que elas sabem sobre nós

Sabem que olhamos para as curvas dos corpos delas nos vestidos e imaginamos o que estará por baixo. Que as vamos descascando: camada a camada. Sonhando com a cor da lingerie que trazem no corpo. Se é vermelha, ou preta. Perdemos minutos a imaginar como será que o corpo se aguenta em toda aquela camisa de forças. Será que as ancas não gritam? Será que os seios não esperneiam? Assumimos que sim. Elas sabem disso. Quando as deixamos passar à nossa frente, ou lhes damos um jeitinho no meio da multidão, elas sabem que somos cavalheiros da nossa causa, à nossa maneira. Só lhes queremos sentir o perfume, ou procurar um eventual toque no corpo. Um motivo para meter conversa, ou para as apreciar noutros ângulos. Elas sabem disso. Sabem que conquistamos as amigas para as conquistar. Ninguém vence batalhas sozinho. Elas sabem disso.  Elas sabem quem são os bons e quem são os maus. (Acreditem!) Apenas optam por escolher os maus mais vezes. Só se acerta uma vez na vida. E elas gostam de gastar as fichas todas de uma vez. Sabem quando temos alguém. Desconfiam. Desdobram-se em mil. Procuram respostas. Fazem inquéritos. Até que no fim, quando têm a certeza, nos martirizam. Elas sabem quando nos têm na mão. Fazem-se de despercebidas. Fazem-nos julgar invencíveis, os reis do mundo, os sultões dos bares. No entanto, elas sabem e deixam-nos passar por parvos. Elas sabem quando olhamos para outra, enquanto estamos na esplanada a beber café. Apanham-nos no nosso jeito atabalhoado de disfarçar. No auge do excesso de testosterona que nos torna em seres desajeitados. Sabem que fantasiamos com a vizinha, e imaginam que nós a imaginamos connosco no banho, na mesa da cozinha, ou no elevador. Elas sabem, e fazem-nos sofrer por isso: uma dor de cabeça aqui, um dia cansativo ali… Ou então, obrigam-nos a suar a vizinha para fora do nosso corpo. Obrigam-nos a entender o que temos em casa - que vale mais que a vizinha, que a rapariga do café ou que a colega de trabalho. Elas sabem como nos manipular. Sim, elas sabem. Elas sabem como nos domesticar. Mas também sabem como nos mimar. Sabem quando amuamos. Quando estamos a chocar uma gripe. Ou quando só tivemos mais um dia mau. Sabem quando desesperamos por um beijo. Quando procuramos um pouco de afecto. Elas sabem lidar com os nossos amigos. Sabem como os conquistar. Sabem qual é que era bom para aquela amiga que só tem olho para trastes. Sabem fazer-nos felizes. Sabem como nos deixar à beira de um ataque de nervos. Sabem que botões apertar para despertar um ataque de ciúmes. Sabem como nos obrigar a fazerem-se sentir desejadas. Elas sabem tudo. Sabem até que eu não fiz por mal quando comecei o texto a imaginar as curvas de cada uma delas a desfilarem em lingerie, no meu quarto, ou em qualquer outro lugar. O que elas não sabem é que nós fazemos tudo para acertar. E damos tudo para nunca errar (embora errar seja humano).

PedRodrigues

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As mulheres no cinema

No cinema, o filme é só mais um filme. A tela em branco é só mais uma tela em branco - tingida com o protótipo de vidas alheias com que todos sonhamos. Procuramos identificar-nos com as personagens principais. Vemo-nos em cada gesto. Encontramo-nos em cada beijo. Partilhamos cada lágrima. Nos momentos de alegria sorrimos, como se aquele

-Amo-te.

Fosse para nós. Nos momentos de tristeza choramos como se fosse o nosso coração que estivesse a dançar na corda bamba.
No final das contas, vou ao cinema para me sentir viva. Para fugir da monotonia dos meus dias. Para esquecer o meu trabalho no hospital. Para ser uma aventureira destemida. Para ser a mulher que o herói procura. Para saltar de aviões. Evitar o apocalipse. Para estar em Roma, Londres, Nova Iorque, Sydney, Hong Kong… Para ser beijada em Paris. Para ser eu no meio dos clichés mais românticos que possa imaginar. Para ser eu: noutro corpo, noutra vida, noutro tempo, noutro lugar. Eu que nunca viajei. Raramente tiro dias para passear. Normalmente faço turnos a seguir a turnos. Pacientes atrás de pacientes. Não consigo fugir do sangue e das lágrimas. Dos cancros, das depressões, dos hipocondríacos e daqueles velhinhos que têm

-Uma dor aqui na perna há uns dias. E depois esta pieira no peito, senhora doutora.

Saudades de um pouco de afecto. De um grama de carinho, apenas. Que não buscam por mais uma dose de insulina, mas por um abraço e um sorriso

-Até à próxima dona Lucinda. Cumprimentos aos seus.

Uma mão nas costas para saberem que vai tudo correr bem. Embora não seja bem assim. E por vezes, numa questão de meses, a ficha da dona Lucinda faça apenas parte do arquivo. Infelizmente, a vida não é como um filme, em que no final, “no matter what”, tudo acaba bem.
No outro dia, o rapaz com quem ando a sair levou-me ao cinema. Confesso que me tem vindo a conquistar. Não sei se a culpa é do olhar - tem um olhar sonhador. Ou da gentileza com que me trata. Nesse dia cumprimentou-me com um beijo no canto da boca, enquanto me dava a mão, desdenhosamente, à porta de minha casa. Arrepiei-me. Não é normal em mim. Mas senti um friozinho na espinha, literalmente. Ofereceu-me o bilhete e deixou-me escolher o filme: uma comédia romântica. Dei por mim a encostar a cabeça no ombro dele. A perder-me nele, em vez de me perder no filme. A pensar como seria se ele se levantasse naquele momento e se fosse embora. Foi nesse momento que entendi que, por muito bom que seja o filme, sem ele não teria o mesmo sentido. Foi nesse momento que deixei de me perder a imaginar como seria se eu fosse a personagem principal: a saltar, a beijar, a chorar, a viajar… Nesse momento a tela em branco eclipsou-se nela mesma. E eu ali, perdida no ombro dele. A cheirar-lhe o colarinho e a guardar a fragrância num frasco, algures na minha cabeça. A respirar contra o pescoço dele enquanto lhe sentia os pêlos da barba e os cabelos na minha cara. Nesse momento senti uma pequena saudade. Se ele se levantasse e se fosse embora, era só o que me restava. Saudade. Saudade daquele momento em que deixei de ser uma personagem num filme e me senti uma pessoa real. A tentar procurar um

-Amo-te.

Nos olhos dele. Enquanto ele, tímido, olhava para o filme. Inquietava-me não saber em que estava a pensar. Se estava a sentir a minha respiração ansiosa no pescoço dele.

-Claro que sim. Não sejas tonta.

Pensava eu para mim. Enquanto imaginava os lábios dele a dizerem-me isso mesmo.

-Não sejas tonta.

E eu não sou tonta nenhuma. Quero apenas que ele se vire e me abrace. Que me agarre na mão e me diga

-Nunca mais a vou largar.

Eu a sorrir. Como quem sorri no filme. Ele a abraçar-me, tímido. A virar-se para mim. E é então que, tal como no filme, atingimos o clímax. Um beijo. Aquele beijo com que tenho sonhado uma vida inteira. Aquele beijo que me tem sido adiado devido às gripes alheias. É nesse momento que o imagino deitado numa maca, de peito aberto e coração de fora. O meu nome lá no meio. Gravado, como uma tatuagem. Quem me dera saber o que lhe vai na cabeça. Se realmente me quer para sempre, ou se, por outro lado, se vai levantar a meio do filme para nunca mais voltar.

PedRodrigues


sábado, 22 de outubro de 2011

Poema número trinta e dois

Triste fado dos mendigos

Sentado no escuro
Uma garrafa na mão
Um gato no muro
Uma faca no chão
Um cão vadio
A roer um osso
Um gole da água
Do fundo do poço
Uma dor de cabeça
Em cada esquina
Ou apenas o grito
Duma puta mais fina
Um salto a pisar
O meu coração
Tiraram-me o osso
Mataram o cão
No fundo do poço
Só há absinto
Pobre de mim
Só gosto de tinto
Sentado no escuro
De garrafa vazia:
O cão não ladra,
O gato não mia.
E eu sozinho
A desesperar
Enquanto a morte
Tarda em chegar.
Faltam-me as forças
Falta-me o pão
Já nem para as putas
Tenho um tostão
Hoje sou mendigo,
Ontem era patrão
Tiraram-me tudo
Menos o chão.
Sentado no escuro
Sem nunca perecer
Sou fã da morte
Até um dia morrer
Que venha depressa
Mas, hoje, não
Eu até tenho a faca
Só me falta o coração.

PedRodrigues

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Última carta a todos os que me amam

"Os bons vão sempre primeiro. Até um dia, amigos."


A todos os que me amam:

Não deixem de me amar. Mesmo que o meu coração deixe de bater e o meu corpo comece a gelar. Peço-vos: não deixem de me amar.
Não sei para onde vou. O meu coração começa a desvanecer. Não vejo nenhuma luz. Sempre me disseram que havia uma luz. Mentiram. Sinto a cabeça a cair. As minhas mãos estão dormentes. Não vejo nada a não ser um nevoeiro. Cada vez mais denso, cada vez mais gelado. Não sei para onde vou. Sei que nunca mais vou sentir a areia nos pés. Ou uma simples brisa de verão na cara. Tenho pena.  Nunca mais vou mergulhar no mar. Nunca mais lhe vou sentir o toque gélido das marés de inverno. Apenas este frio miudinho que me vai roendo as entranhas. Cada vez mais intenso. Cada vez mais incomodativo. Também me disseram que a minha vida me ia passar à frente dos olhos, como um filme à velocidade de um avião a jacto. Nada. Apenas este nevoeiro. Um manto turvo à frente dos olhos e o corpo cada vez mais dormente. Já nem sei a que cheiram os ramos de jasmim do quintal dos meus avós. Gostava de os cheirar uma última vez. Faltou-me o tempo para os cheirar. Faltaram-me as gavetas na memória para guardar o cheiro. Neste momento, faz-me falta. Não sinto nada. Nem o cheiro da gasolina. Nem o cheiro do asfalto quente. E os ramos de jasmim ficaram perdidos no tempo. Numa moldura que guardei no cimo de uma cómoda sem gavetas. Faltou-me o tempo. Faltaram-me as horas, os minutos, os segundos. Não guardei nada na memória. Apenas as imagens dos melhores momentos. Das pessoas mais queridas. Daqueles que me amam. É em vocês que me vou abraçando. Às vossas molduras, na procura de um bocadinho de calor que me aqueça. Ou de uma mão que me guie pelo nevoeiro.
Não chorem por mim. Não beijem a fotografia da minha lápide em busca de conforto. Não sei para onde vou, mas se a alma existe, imagino que prossiga com a minha vida – ainda que de uma forma imaterial. Não vos vou poder confortar. Vou-vos abraçar. Acreditem que vou. Não vão sentir-me. Não vão conseguir me ver. Apenas um friozinho na barriga e uma sensação de desconforto enquanto as lágrimas vos vão caindo dos olhos em quantidades industriais. Não chorem por mim. Apenas me vão matar mais um bocadinho. Metam flores na minha campa. Nunca fui grande amante de flores, mas metam-nas, de qualquer forma. Enfeitem o local para que fique mais alegre. Para que vos ajude a sorrir. Guardem uma lágrima em cada pétala e não chorem.
Não olhem para o céu à minha procura nas estrelas. Não sei para onde vou, mas nunca fui astronauta. Sempre sonhei em voar – quem não sonhou? Mas nunca quis ser um pássaro. Não acredito que ganhe asas, ou que, num passo de magia, ganhe a habilidade de levitar. Olhem para o mar e imaginem-me lá. Não precisam de imaginar. Eu lá estarei: no meio das ondas. A tentar provar uma última vez o travo salgado do oceano. A nadar com os peixes, como um dia sonhei. Juntem-se a mim. Sentem-se ao meu lado na areia. A rir às gargalhadas como antigamente. A lembrarem-me. A recordar cada tropelia de quando estávamos juntos e felizes. A sentir uma ligeira brisa de verão na cara. Uma ligeira brisa de verão. Como esta que agora me bate na cara. O meu corpo cada vez mais dormente. O nevoeiro cada vez mais denso. O frio cada vez mais gelado. Um inverno em mim.
Sinto-me a desaparecer. Uma folhinha de uma árvore outonal a ser levada pelo vento. Está na hora. Faltou-me o tempo. Faltaram-me os travões. A parede não se desviou e limitou-me a eternidade. Agora, sou um pedaço de inverno a gelar a cada minuto que passa. Não sinto o cheiro e não me lembro de como cheiravam os ramos de jasmim do quintal dos meus avós. Só vos peço: não deixem de me amar. Não me esqueçam. Não sei para onde vou, mas tenho para mim que se seguirem o vento acabarão por me encontrar: a chapinar numa poça enquanto sonho com um último mergulho, que nunca dei, no mar.

PedRodrigues

(Crónica da edição de Fevereiro/Março da revista Algarve Mais)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Olá Lisboa


Olá Lisboa,

Regressei no mesmo comboio que me levou até ti. Parecia-me o mesmo, mas sinceramente não sei se seria o mesmo. Desembarquei na estação de Santa Apolónia. Está diferente desde a última vez que lá tinha estado. Mais moderna. A acompanhar a evolução dos tempos. Estava de noite quando cheguei e tu estavas linda vestida pelo brilho das luzes.
Apanhei um táxi até casa e a caminho fui revisitando alguns locais que me tinham sido apagados da memória. Continuas igual. As pinturas nos murais erodidos pelo tempo continuam a colorir-te da forma mais jovial possível. As casas continuam a transpirar tradição e até o musgo lhes continua a acentuar uma impetuosidade que poderia ter sido esquecida pelo tempo. Cada paralelo continua a ecoar nas rodas da mesma forma; e os barulhos das pessoas, dos carros e de toda a tua correria continuam a ter a mesma delicadeza. O Marquês continua a olhar para o rio, a desdenhar cada passo de quem se desloca pela Avenida da Liberdade. O Chiado e o Rossio continuam a ser a passerelle de todo o tipo de almas – mesmo das vazias. Continuam a  ser o local de trabalho dos artistas de rua, aspirantes a Jimmy Page - não fosse ter falhado a tal nota no momento certo, ou o toque de Midas na guitarra - que vão dedilhando uma Stairway to Heaven capaz de dar luta à original. Enquanto os turistas – só os turistas – lhes vão atirando uma moeda que andava a fazer peso no bolso e os vão guardando nas máquinas fotográficas, para mais tarde recordar – ou para dizer que estiveram a um metro de um quase Jimmy Page, em Portugal. Os cafés continuam cheios. Não há cadeiras vazias. Sentei-me algures na praça do Chiado a beber uma água. Procurei-me em cada rua. E enquanto me procurava dei por mim a admirar um Fernando Pessoa imaginário: a bebericar num cálice de absinto, ao mesmo tempo que escrevia uma ode a cada pedra da calçada. Apertei-lhe a mão e pedi-lhe cinco minutos de conversa. Ignorou-me e continuou a escrever. Eis o teu efeito em nós, Lisboa. És absorvente. Deve ser por isso que também te escrevo, ignorando tudo o resto.
No meio da minha jornada pelas tuas ruas entendi-te como uma cidade de extremos. A dicotomia entre classes sociais é visível a metros de distância. Mas não és menos elegante por isso. Até os mendigos exibem maior classe que muitas das senhoras que passeiam quilos de ouro pela calçada em cima dos seus sapatos de salto-alto. (Embora saiba que não há elegância nenhuma em mendigar por comida, ou abrigo, tenho para mim que quem mendiga por amor, ou apenas por uma pequena gota de altruísmo acaba por tocar no fundo do poço primeiro.) Isto és tu Lisboa. Um caldeirão onde se misturam raças e estratos sociais. Onde há, realmente, de tudo. Onde uma moeda pode ser a ajuda para o pão do dia, ou para a dose de mais uma noite, enquanto a ressaca não bate à porta - sei que nisto és só mais uma, infelizmente.
Lisboa vou-te ser sincero: não conheço o mundo - umas viagenzitas, nada de especial. Mas acredito que sejas única. Acredito que és a única que consegue juntar o passado com o presente de uma forma tão subtil que quase ninguém nota. Juntas a nostalgia dos eléctricos antigos, aqueles “comboios pequeninos” - como dizia quando era mais novo – e o modernismo das estações de metro. A delicadeza de cada edifício que transpira anos de história e o design futurista de tantos outros. Lisboa: tu és Camões; és Pessoa; és Marquês de Pombal; és Amália; és D. José e D. Duarte; não és francesa, és bem portuguesa. Continuas a cheirar a Lisboa em cada átrio de entrada. Não sei explicar-te a que cheiras, não lhe distingo nenhum aroma conhecido. Cheiras apenas a Lisboa – e como eu gosto do teu cheiro.
Parto no mesmo comboio que me trouxe até ti. Santa Apolónia agora está igual. Fica apenas a sensação de que parto sem ter-te conhecido como mereces. Com a sensação de que me falta algum bocado - falta-me sempre algum bocado. Ainda é de dia e o Tejo reflecte a tua imagem nas suas águas. Parto com aquele bichinho no corpo. Infelizmente não há postais que te guardem como és - nem fotografias, nem textos. Ninguém consegue levar-te no bolso. Eu trago-te na memória com a esperança de um dia - em breve? - voltar. Até já, Lisboa!

PedRodrigues

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O amor não é um palco

-O que tens?

Ela parecia-me distante. Um imenso espaço em branco entre nós. A fugir aos meus toques. Sem reagir às minhas carícias. Sem me beijar. Nem um pequeno toque nos dedos. Um abraço com o olhar. Nada.

-Estou cansada.

No fundo eu sabia ser verdade. Agora que nos víamos separados por uma distância física que não conseguimos vencer, ela tem percorrido quilómetros para me ver. A distância também cansa.

-Vamos para casa.

A caminho do táxi: cada um para o seu lado. Os passos sem sintonia. Um à frente do outro, sem dar as mãos – nunca damos as mãos na rua. Damos, mas por pouco tempo. Demonstramos o nosso afecto sem exageros. Sem tornar a nossa relação penosa para quem está à nossa volta. De certa forma, não ligamos a convenções. Não amamos para o público. O amor não é um palco.
Entrámos no táxi sem nunca nos tocarmos. Separados por uma cerca invisível que teimava em se meter entre nós. Enquanto ela olhava pela janela, eu olhava para o espaço em branco que nos separava. Procurava saltar a tal cerca que teimava em ser um entrave entre nós. Eu com os olhos postos no espaço em branco. Ela olhar os semáforos pela janela. A ver enquanto mudavam de cor. Uma luz verde que teimava em não aparecer. Não só no semáforo, também entre nós. Uma estrela cadente que ela ia procurando no céu. Talvez. Digo eu, que me sentia perdido no buraco negro que era o espaço em branco. A desesperar pela luz verde que teimava em não aparecer. Um

-Dá-me agora a mão que a luz está verde

A passear pela minha cabeça. Eu a olhar para o espaço em branco. E enquanto olhava para o espaço em branco que me separava dela, ia olhando para um letreiro colado no vidro: “Proibido fumar”. Nos espaços entre os meus dedos, os dedos dela pareciam fugir-me – ou fugiam-me realmente – e eu ansiava por aquele cigarro que nunca fumei. Aquele que me ia salvar do nervosismo da indecisão. Da negligência de um olhar que teimava em não aparecer. Seriam as estrelas mais interessantes que eu? Onde estava eu, realmente? Sentia-me pequeno. Verdadeiramente pequeno. Afinal o semáforo nunca passou do vermelho. Afinal as estrelas são mais importantes que eu. Engraçado…
O taxista parou a vinte metros do meu prédio. No caminho entre o táxi e a entrada, o silêncio era só silêncio nada mais. Ela fugia de mim. Eu olhava para ela, à velocidade da luz, e deixava-a fugir. Talvez a minha masculinidade a falar mais alto. Talvez algo mais. Eu a olhar para o outro lado dela. A ver como nunca ninguém quer ver ninguém.

(Nunca ninguém quer ver ninguém assim, acreditem.)

 Ela sem me dar a mão. Sem me dar o rosto. Nem os lábios. Apenas os lábios. Nada. No elevador uma falésia entre nós. Algo que nos separava. Uma parede. Não sei. Sei que nem uma palavra, nem um sorriso, nem um gesto. Sei que entrámos em casa, em direcção ao quarto, e nem um “Boa noite”. Nada. Deitou-se - no lado dela que não sei se me pertence. Na mão dela, sem ninguém a chatear. A negligenciar a minha vontade. Talvez não. Na minha cabeça, a negligência é apenas cansaço. Apenas cansaço. No entretanto, lá vai fechando os olhos do lado dela, a namorar com a parede, – ou com o meu "eu" dos sonhos dela  – enquanto eu me vou desdobrando nesta busca pelas palavras que descrevem os espaços em branco que teimam em nos separar. A pensar que ninguém ama como quer, mas como pode - como li algures: “Mesmo que não te amem como tu queres, não quer dizer que não te amem com tudo o que têm.” Eu que acredito que existam várias definições para o verbo “amar”. No entanto, acredito que, todas elas partilham o mesmo núcleo. Para mim, “amar” é tão simples como isto: é dar a mão a alguém e nunca a largar. É desfrutar cada momento com essa pessoa, na saúde e na doença. É ser feliz no meio de cada imperfeição, porque convenhamos: o mundo não é um sítio perfeito. Para mim, amamos de mãos dadas.

-Dá-me a tua mão e vamos ser alguém

Um murmúrio

-A vida é feita para nós

A cantarolar de mãos dadas. Nunca na rua. Por vezes na rua. Sem plateias. O amor nunca foi um palco. E é quando passamos do amor ao teatro que nos vamos magoando. O amor não é um palco.

-Um beijo. Beija-me agora que não está ninguém a ver.

Ela a pensar em voz alta

-Tens vergonha de mim?

Eu a olhar nos olhos dela. Uma tristeza tão pequenina a chorar atrás dos olhos, bem lá no fundo.

-O amor não é um palco.

Ela vazia. Eu

-Beija-me agora que estão todos a olhar. Mas não lhes dês o prazer das palmas. Imagina-nos sozinhos.

A dar-lhe a mão. A dar-lhe a mão para o bem ou para o mal. A amar.

-Vês? O amor não é um palco.

E, se o amor fosse um palco, ela não me tinha abraçado o peito, serena, a dormir. Enquanto eu vou escrevendo sobre os espaços em branco que um dia deixaram de nos separar.

PedRodrigues

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Não sei amar em inglês (Reflexão a quente)

É meia-noite. O último autocarro acabou de passar. Consigo ver a paragem, da janela do meu quarto.

(Hoje não a consigo ver.)

Tenho a minha namorada sentada no parapeito a olhar para o abismo. Ou à procura de uma vertigem que tarda em aparecer do asfalto que limita o final desse abismo. Lá vai fumando o seu cigarro, enquanto eu aqui estou: deitado na minha cama a imaginar as linhas deste texto. Sinto o cheiro dela nas almofadas - adoro. Juro que adoro. O cigarro continua a arder, lentamente. Ela continua a olhar para um sítio qualquer. Está a dormir de olhos abertos no parapeito da minha janela. Eu aqui, a olhar para ela. A observar cada gesto. A forma como leva o cigarro à boca. A forma como expira o fumo.  A forma como contrai as pernas devido ao desconforto causado pela pedra do parapeito. Ali está ela: a minha namorada. Nem sempre as coisas foram assim.
Lembro-me de quando não tinha namorada. Lembro-me da busca incessante pela mulher certa – a que se sentasse no parapeito da minha janela, a fumar um cigarro, enquanto eu a observo da minha cama, a tentar avaliar o grau de loucura que me leva à loucura. Lembro-me das muitas noites que passei sozinho. Aquelas a que ninguém dá valor - visto que fazem de mim uma puta. Lembro-me de algumas outras, não menos solitárias. Alegres, com um final triste. Ou apenas um final, já que todos os finais são tristes. Elas a fugirem-me entre os dedos. Ou eu a abrir a mão para as deixar fugir. Não tenho pena delas. Não tenho pena de mim. Viver é isto: aprender a cada passo. Viver é isto: desdenhar cada passo como se fosse o último. Devia ser assim.
Sempre me senti como o centro de um campo magnético a que algumas pessoas estão sujeitas. Sempre me senti assim. Não me lembro quem me fez pensar que as coisas funcionam desta maneira. No entanto, na minha cabeça – e na cabeça de muita gente – a minha vida é este jogo de damas, em que eu ganho a cada peça que colecciono . Lembro-me de

-Gosto de ti

Ser o centro de algumas galáxias nas quais falta um sol. Não sou um sol. Nunca fui um sol. Não tenciono ser um sol. Não sei amar. Seja em que língua for. Sinto-me a aprender. Hoje.
Elas

-Há algo em ti

Enquanto eu não me entendo. Enquanto eu nunca me entendo. Enquanto eu nunca me entendia.  Eu a ser um centro de algo que ainda não sei. Hoje.

-Desculpa. Não sei amar em inglês.

Enquanto elas me iam falando em línguas que não entendo. Ainda hoje não entendo. Todas elas lindas. Todas elas mulheres. É preciso dizer mais? Mulheres. O verdadeiro mistério da raça humana. O “ser ou não ser?” do Shakespeare, em cada curva, em cada gesto, em cada palavra. Elas. Mas eu

-Não sei amar em inglês.

Nunca soube. Elas que atravessavam oceanos. Faziam-me juras de amor. Entregavam-se. Ainda hoje não as mereço. Não as quero merecer. Olho para a janela. Ela. Sim, ela. Linda. No crepúsculo entre a aurora e as luzes dos candeeiros. Ela na janela. O último autocarro. Eu a ler as linhas deste texto nela. Nas curvas dela.

-Não sei amar em inglês.

Tu sabes? Não me interessa se sabes, realmente. Eu não sei. Não quero amar em inglês. Não há nostalgia nesse canto do amor. Há? Não acredito. Sou demasiado céptico. Ainda continuo a descobrir o amor. No entanto

-Não sei amar em inglês.

Todas as mulheres são lindas. Cada uma na sua língua. Desculpem-me. Não sei amar dessa forma. Na vossa língua. Amo cada uma à minha maneira. Desculpem

-Não quero amar em inglês.

Digam-me coisas. Sussurrem-me palavras. Digam que me amam. Digam que sou importante – mesmo que agora esteja aqui, sozinho, a escrever. Não me digam. Não preciso.

-Não sei amar

(-Em inglês?)

Ela ali na janela

(-Sim)

Eu a olhar para ela.
O último autocarro a fazer o barulho de um motor gasto. Eu sorrio enquanto ela me devolve o sorriso.

-És linda

Ela

-Sabes amar em inglês?

Eu

-Não. Nunca aprendi. Nunca quis aprender.

(Ela atira o cigarro pela janela.)

Uma perna entra pelo quarto enquanto ela me sorri. Eu a devolver o sorriso. Paralisado. Barulhos na rua. As outras a chorarem por algo que nunca entendi. Nunca hei-de entender. Tenho para mim que cada um sabe o que dizer, como dizer, quando dizer. Não há um amor de modas.

-Não sei

Eu

-Juro que não sei

O quê?

-Amar em inglês.

Elas passeiam os vestidos, os sorrisos, as falas nessa língua dos filmes de cinema. Infelizmente para elas, não sei amar em inglês.
Hoje deito-me aqui sozinho a imaginar a minha namorada: na janela, a fumar um cigarro, enquanto o último autocarro teima em não passar.
Felizmente para nós, não precisamos de falar. Felizmente para nós

-Eu sei-te amar

As barreiras linguísticas apanharam o último autocarro, que teimava em não passar na paragem que, hoje, não consigo ver da janela do meu quarto.

PedRodrigues

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Acerca de segundos encontros, livros e dedicatórias

Aquele segundo encontro parecia o primeiro. Ali estava eu, no ponto de encontro, à espera dela. Quando, de repente, a vejo. Trazia um vestido roxo com padrões, umas sandálias douradas, um ligeiro toque de maquilhagem - nada de extravagante - e o cabelo ainda húmido. Lembro-me de pensar para mim: "É ela! Estou apaixonado". Deu-me um beijo impetuoso na face. E eu parei por momentos. Ou o tempo parou por momentos. Não sei. Eu trazia o meu pólo cor-de-rosa vestido. Tinha passado uma pequena eternidade a tentar escolher o melhor conjunto para a impressionar da forma mais casual possível. Mas, no momento em que os meus olhos se perderam nela, senti-me nu. Senti-me insuficiente. Ali estava ela. Ali estava ela a brilhar. Ou eu a perder-me num universo alternativo em que ela era uma estrela. Não sei.
Tinha acabado de chover, mas o calor era imenso. Ela

-Não entendo este tempo

Rogava pragas ao tempo. Eu perdia-me na inércia que a imagem dela me provocava. Estava estático. Perdido entre a realidade e a ficção. Acordei, por momentos

-Tenho de ir à feira do livro. Vamos?

Tínhamos como destino as docas. O mesmo destino do nosso primeiro encontro. Mas, desta vez, trocámos a vontade de correr pela vontade de passear. Caminhámos. E, durante a caminhada, todo o tipo de conversas surgiram. Algumas sem nexo. Ela ria, esperneava, gritava. Eu tentava acompanhar toda aquela loucura. Não queria ser deixado de fora da tempestade. Impossível. Ela cada vez mais bonita. Ela cada vez mais interessante. A cada sorriso: mais bonita. A cada frase sem nexo: mais interessante. Ela. Eu a sentir-me cada vez mais pequeno naquele universo. A querer crescer e levar o mundo dela às costas, qual Atlas da Grécia Antiga. De facto, era ela. Estava apaixonado.
Procurámos, por todas as bancas, o livro perfeito. Cada um falava dos seus livros favoritos. Os que sonhava ler e os que já tinha lido. Cada um divagava à sua maneira. E no meio do sorvedouro de críticas, pensamentos e citações a minha atracção por ela era cada vez maior. Escrevia livros na minha cabeça. Imaginava-os ali, naquelas bancas: livros sobre ela, livros para ela. Uma vida em milhares de páginas. Eu e ela em cada palavra. Um pedaço de mim para ela. Ali estava eu a escrever histórias. Enquanto a imaginava naquela luz das cinco da tarde: sentada numa esplanada à beira-mar, de livro na mão, a ler as minhas páginas. A ler-se nas minhas páginas. A sorrir. Aquele sorriso secreto. O “Secret Smile” - como o da música - que eu sabia esconder-se atrás da máscara de indiferença que ela usava. Ela a ler-se nas minhas páginas. Eu a imaginar. Uma dedicatória na minha cabeça

“Para ti, que me deste o prazer de partilhar cada página da tua vida comigo “

Calei-me. Guardei a dedicatória no baú de dedicatórias que tinha acabado de criar.

(O livro perfeito a olhar para mim. A pedir-me que o levasse)

Ela

-Vamos beber um mojito

Eu

-Só pagar isto e já vou

Sentámo-nos na esplanada a ver o sol espelhado no Mondego. Ela olhava para o rio. Eu olhava para ela. A luz: perfeita. O clima: perfeito. Eu perdido, cada vez mais, a imaginar. O cabelo dela já tinha secado, mas continuava lindo. O sol a beijar-lhe a face e eu a invejar-lhe cada raio. Sonhava beijar-lhe a face. Sonhava beijar-lhe a boca, o lóbulo da orelha, o pescoço…

(Um gole na água que tinha pedido)

Ela cruzava as pernas e eu perdia-me no horizonte entre os dedos dos pés e o limite do vestido. Que mulher. Ela inspeccionava a minha compra à procura de um defeito que não encontrou. Dava pequenos goles no mojito e olhava para mim. Eu continuava a olhá-la. Continuava a imaginar-me num pôr-do-sol, de mãos dadas com ela, a passear junto ao mar. Ela mordia a hortelã. Eu mordia os lábios a imaginar a textura dos lábios dela. Uma brisa ligeira abanava-lhe os cabelos e trazia, generosamente, a essência dela até mim. Como cheirava bem. Um arrepio no estômago. Ela nos meus livros: a ler-se.
O encontro acabou no sítio onde tinha começado. Olhei para ela uma última vez, naquele dia. Continuava com o mesmo brilho. O tempo parou novamente - ou eu parei novamente, não sei. Fiquei a imaginar dedicatórias para meter no baú. No meio da minha inércia senti a impetuosidade de um novo beijo na face.

-Adeus Pedro

E enquanto ela desaparecia na paisagem, eu escrevia-lhe livros, na minha cabeça. Em todos eles uma dedicatória tirada do baú

“Para ti, que me inspiras todos os dias a ser mais e melhor”

PedRodrigues

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Índia, até amanhã

-Tenho saudades tuas

Disse ela, em tom sincero, numa das mensagens. Lembro-me de sorrir. Lembro-me de sentir um sorriso fugir-me da face. Ela tem esse efeito em mim. Descontrola-me de uma forma que não entendo. Hoje senti a falta dela. Sinto a falta dela todos os dias. Mas hoje faltou aquela mensagem, ou aquele telefonema. A dose de loucura que me anima o dia. O sorriso descontrolado que vou deixando fugir-me da boca. Hoje entendi a falta que ela me faz, realmente. Uma palavra, uma frase, um sorriso. Sinto a falta dela. Tenho saudades dela.
Liguei o computador e procurei por um sinal. Vi uma foto dela. A nova foto de perfil. A foto não é dela. Ou por outra, é dela, mas não me lembra quem ela é. Falta-lhe a loucura no rosto. A alegria. Falta-lhe a alegria. A beleza continua lá. Um pingo de ciúme. Comentários de rapazes e o ciúme a crescer. Ela ali, linda. No entanto, não é ela na foto. Uma imagem dela, sem vida. Os comentários. Tantos comentários e ninguém entende que não é ela na foto. Uma mensagem

-Estou chateada

(O resto da mensagem guardo para mim)

Uma explicação para aquela foto. O espelho de um dia mau. Só mais um dia mau. O tempo lá fora não ajuda.
Um telefonema. Não é ela. São os meus amigos. Visto-me e vou com eles. Entre as gargalhadas lembro-me da cara dela na foto. Lembro-me

-Tenho saudades tuas

De todos os momentos que já passei com ela. Do primeiro beijo. Do primeiro beijo de verdade. Na varanda, depois de um cigarro. Eu a aborrecer-me com o fumo. A dizer

-Larga isso

E o beijo a aparecer. Eu rendido. Cada vez mais rendido. A pensar se errei. A pensar se devia ter dito “sim” quando disse “não”. Ela longe de mim e eu a implorar pelo abraço dela. A procurar o cheiro dela numa roupa qualquer. A ver a fotografia e a entrar em pânico. A pensar que alguém lhe pode estar a tocar na minha vez. A pensar que ela pode estar farta de mim. Que já não me quer. Que já não lhe chego. Que não sou o suficiente. Embora

-És pequenino, mas assentas-me na perfeição.

Eu saiba que ela também me quer. Ela que é fantástica. Ela que precisa de alguém que a compreenda. Alguém que não lhe elogie apenas as fotos. Que não a censure nos actos. Alguém que a entenda

-Assustas-me quando penso no quão parecidos nós somos

De facto. No entanto no meio da indefinição do nosso estado lá vou tendo medo dos fantasmas dos amores passados. Embora eu seja a personificação do amor futuro. O pequeno amor é só o início: o embrião de um grande amor. Eu acredito nisso. Sei que, à maneira dela, ela também acredita. Agarrada aos seus medos: ela acredita. Eu não tenho medo de me apresentar como “aquele que acabará com os fantasmas”. Não tenho. Não tenho medo de ser “Vasco da Gama e partir em busca da Índia do meu coração” - como li algures. Ela é a minha Índia. E não há Cabo das Tormentas que me pare, nem Adamastor que me meta medo.

-Tenho saudades tuas

(A minha mãe a chamar-me para jantar)

Eu deitado na cama a ler as mensagens dela e a sorrir. Só para poder sorrir de forma descontrolada.
Eu

-És linda

Ela

-Nós elevamos o expoente da nossa loucura juntos

Eu a sorrir.

-Estou a morrer de saudades tuas

Quilómetros de saudades que nos separam. Eu que já não aguento mais. Um abraço dela. Preciso de um abraço dela.

-Amanhã estamos juntos

A toda a velocidade. Se o vento continuar a soprar a favor, chegamos à Índia, amanhã.

PedRodrigues