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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ao meu pai, o marinheiro


Sinto que sentes que não falo o suficiente de ti. Como poderias sentir-te de forma diferente? Como poderia eu falar mais que aquilo que falo? Na verdade, não poderia. És a figura menos presente na minha vida. Mas, a par da mãe, és a mais importante. Segundo ela, somos feitos da mesma matéria – seja ela qual for. Segundo ela

-Ele é todo pai

Somos gémeos siameses presos num nó cego de semelhanças. Sempre que ela diz isto, lembro-me da tua fotografia no móvel da sala da avó Alice, tinhas dez anos. Sempre que ela diz isto lembro-me da fotografia na estante do hall de entrada de nossa casa, tinha eu dez anos. A certa altura das nossas vidas fomos gémeos – apenas um desnível temporal e uma paleta de cores a separar-nos. De certa forma, vamos caminhando pela vida tirados a papel químico um do outro.
Sei que a vida que escolheste sempre deixou espaço a longas ausências. Não te condeno. Nunca senti falta do teu amor durante o tempo em que não estavas. Nunca me abracei às tuas fotografias em busca do amor perdido. Uma vez, quando era pequeno, lembro-me de estar a pensar para mim “como é a cara do pai?” e corri pela casa à procura da tua imagem, num pânico imenso, natural da idade. Desde esse dia que nunca mais me esqueci da tua cara, ou do timbre da tua voz, ou da tua altura. Para ser sincero, desde esse dia que deixaste de partir. Para mim estás sempre aqui, ao meu lado. Aprendi a guardar-te comigo como se guarda quem se ama de verdade. E falando em amor: tu e a mãe partilham o amor mais bonito que conheço: não há mar que o afogue, nem distância que o apague. A verdade é que guardamos calorias de amor nos nossos corpos enquanto estamos juntos e, de vez em quando, lá vamos hibernando uns dos outros sem que essas calorias se esgotem. Não sei se alguma vez reparaste: a melhor mãe do mundo veste trapos de gata borralheira em corpo de princesa. E a melhor esposa do mundo veste uma face de certezas, num estômago de incertezas. Apesar de todo este ziguezaguear de que a nossa vida é feita, a mãe nunca deixou de te esperar e tu nunca deixaste de chegar. Desde miúdo que esta vossa relação em interruptor tem sido o meu mantra para a vida. Vejo a forma como se olham há mais de duas décadas – quase três – sempre com ternura, com carinho, com um amor inesgotável. Toda a disfuncionalidade de que a nossa família é feita ajudou-me a compreender que os grandes amores, os amores que têm contos impressos na história, são feitos de ausências. De maneira que fui aprendendo aos poucos a não deixar de amar aqueles que não estão todos os dias comigo. Foi assim que aprendi a falar com a avó Lucinda na orquestra de silêncio de que a noite é feita. Foi assim que aprendi a montar maquetas da casa da avó Alice na minha cabeça – com todos os jarros, as chávenas, as fotografias, as plantas... É assim que vou esperando por ti, ao lado da mãe, do avô e da avó. Sentados no sofá na expectativa de um bater na porta, ou um rodar na fechadura, com um sorriso atrás do olhar - que não há mar que afogue, nem distância que apague.

(E a mãe vestida com os trajes de uma princesa)

-O teu filho é todo pai.

PedRodrigues

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