terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2016


Vivemos as nossas vidas em função de alguns vazios que tentamos preencher: com coisas que não precisamos, ou pessoas que não amamos verdadeiramente. Esperamos: por algo, ou alguém, no momento certo. Timing, ao que parece. Tudo se resume a isso. Nem sempre estamos no sítio certo, à hora certa, com a pessoa certa. Então vamos colecionando errados. A medo, vamos nadando contra a corrente. Não há salvação possível, pensamos. Esperar é um verbo que nos consome. Há quem espere uma vida inteira
- Um dia ganho o bilhete da lotaria.
- Um dia arranjo tempo para viajar.
- Um dia digo-lhe que a amo. Hoje não. Amanhã, quem sabe?
Vivemos uma vida inteira à procura de uma força qualquer que nos faça avançar. Uma energia cinética interior.
Há tantas possibilidades.
Ensinaram-nos, na escola, a decifrar as palavras dos poetas. Alheios ao facto dos poetas não escreverem com as mãos. E não há uma fórmula certa para desmistificar o que dizemos com o coração.
Ao olhar para trás compreendo a necessidade do erro – cheguei aqui às cavalitas de alguns. Não há fogo que dure para sempre. Tudo se consome. E quando nos cansamos de nadar contra a corrente, sem darmos conta, o mar acaba por nos levar até terra. Talvez porque o tempo de uma onda, aos nossos olhos, é pequeno. Talvez porque o nosso tempo, aos olhos do mundo, é pequeno.
Uma folha em branco tem imensas possibilidades.
Chegamos ao topo da montanha, começando do chão.
 
PedRodrigues

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Inverno


Era um fardo terrível carregar o peso morto dos amores passados no coração.
Então decidi dar descanso às noites mal dormidas e às recordações estúpidas. Já não procuro o que de mim quis partir.
Mendigar não é opção.
Estender a mão não é opção.
Dar a outra face não é opção.
Avanço. Como as ondas de inverno em direcção à areia.
Procuro. Porque as lágrimas choradas nunca fizeram subir as cotas dos rios.
Vou. Sem rumo definido, ou hora de chegada. Porque os maiores tesouros são encontrados em velhos naufrágios.
Liberto. Porque a melhor arte nasce dos corações livres.
Resolvo. Porque prefiro ser pedra, que pó de giz atirado ao vento.
E parto as amarras que os outros teimam em inventar para me prender ao chão.
Ninguém ensinou os pássaros a voar.

 

 
PedRodrigues

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Final de Novembro

Falar nela é falar em Novembro. Em passeios junto ao rio, a adivinhar os peixes a nadarem contra a corrente. É falar na forma como rodava no meio da calçada à procura do norte. Muito disso me fascinava. Sei lá. Fascinava-me a energia que guardava por dentro, a luz interior. Entre outras coisas, como por exemplo a curiosidade inocente com que olhava as flores. Como se procurasse de onde vinha a sua beleza. Apetecia-me dizer-lhe que a beleza não é apenas uma característica exterior e que, por vezes, as coisas mais bonitas, as pessoas mais bonitas - ela - são-no por dentro. Mas calava-me, com medo de estragar o momento. Deixava-me ficar a contemplar os cabelos de vento, a levantarem levemente acima dos ombros. Enquanto, ao longe, o sol se apagava no horizonte e as luzes dos candeeiros se acendiam. À nossa volta a cidade continuava a acontecer freneticamente. Nada disso me importava. Estávamos juntos, à distância de um toque. A minha mão começava a procurar a dela e, devagar, ao contrário de tudo o resto, os nossos dedos acorrentavam-se. Sem querer, espalhávamos olhares na nossa direcção. A cidade tinha mil olhos. E, no entanto, eu só queria morar nos dela.
Falar nela é falar no dia em que parámos debaixo de um candeeiro apagado. Olhámos para cima. Depois dos telhados havia estrelas. Regressámos a nós. As nossas mãos continuavam-nos. Embora não conseguíssemos distinguir os traços um do outro, tínhamos a certeza um do outro. No escuro não há rostos. Então disse-me ter compreendido de onde vinha a beleza das flores e beijou-me. O final de Novembro terá para sempre esse cheiro a beijos às escuras e castanhas assadas. Basta-me fechar os olhos.
 
PedRodrigues

 

 

 

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Outono

Ao ver as copas das árvores a abanarem com as rajadas de Outono, percebeu:
há pessoas que se julgam vento; e outras que se sentem folhas.
Umas movimentam-se segundo os caprichos das outras.

Então sonhou ser raiz.

PedRodrigues

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Crónica dos bons amigos


Estou sozinho em casa.
Olho da janela a chegada dos aviões ao destino. Imagino pessoas que vêm de longe, a chegarem com as suas bagagens - umas mais leves, outras mais pesadas. Nem todas têm as mesmas prioridades. Para algumas, a prioridade é um abraço, para outras uma reunião, para outras uma visita pela cidade, ou uma cama de hotel.
A casa está em silêncio e apenas se ouvem os miúdos a jogarem futebol na rua, por isso posso escrever sem ser incomodado. A solidão é uma coisa estranha. Apesar de gostar de estar sozinho enquanto escrevo, sinto falta do movimento dos meus amigos pela casa. O barulho de fundo irritante das conversas. As entradas de rompante nos momentos menos oportunos. A certeza de alguém com quem ralhar, por não conseguir articular as palavras. A solidão é muito boa, quando sabemos poder partilhá-la.
Ter amigos não é fácil. Não é como carregar num botão e pedir, ou aceitar ser amigo de. A amizade não é uma coisa digital, sem alma. Requer algo mais. Muito mais. Os amigos são uma espécie de força motriz que nos ajuda a avançar. Os verdadeiros amigos podem ser as pessoas mais irritantes e menos oportunas à face da terra, mas no final das contas são uma certeza universal nas nossas vidas: sorriem connosco na bonança e não nos abandonam na tempestade. Por vezes, calam-se para que possamos deitar tudo para fora. Outras vezes ajudam-nos a perceber onde errámos e mostram-nos a melhor forma de seguir o nosso caminho.
Da janela vejo o fluxo contínuo de aviões. A cada chegada, várias prioridades. As amizades também são assim: os amigos fazem dos amigos uma prioridade.
Abriram a porta. Desculpem, mas tenho de terminar esta crónica.
 

 
PedRodrigues

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Equilibrium


Ele gostava de Bukowski e era capaz de falar horas sobre isso. Ela tinha começado a ler o Sexus do Henry Miller e tinha-o pousado na mesa de cabeceira. Ele sabia a Angie, dos Rolling Stones de trás para a frente. Ela vibrava ao som das músicas que passavam na rádio. Ele gostava de longas caminhadas pela praia, no verão, ao pôr-do-sol. Ela adorava a verticalidade das chuvas de inverno. Ele adorava peixe grelhado. Para ela, nada superava um bom bife mal passado. Aos olhos do mundo, eles eram apenas mais duas pessoas condenadas ao fracasso. Matéria prima para mais um desastre amoroso. No entanto, aos olhos um do outro, nada disso importava. Quando estavam juntos, desafiavam as probabilidades. Enquanto ele lia Bukowski, ela lia Henry Miller; ao terminarem, olhavam-se nos olhos, beijavam-se e apagavam as luzes. Sempre que a Angie passava na rádio, eles desafinavam em uníssono. No verão, passeavam juntos ao longo do areal, a ver o sol desaparecer no horizonte e, no inverno, abraçavam-se a ouvir a chuva a despenhar-se no chão. Ao almoço comiam peixe, e ao jantar comiam carne. Por mais diferentes que os seus gostos fossem, eles procuravam sempre o equilíbrio. E é esta, de facto, a palavra chave: equilíbrio.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ir


Tinha o mundo todo por descobrir.
Mapas antigos indicavam novos caminhos.
Às vezes é preciso partir.
Ir.
Procurar novas cores, novas caras, novos sorrisos, novos cheiros, novos sabores.
Meter quem amamos na bagagem.
Inventar abraços feitos de quilómetros.
Ir.
Buscar o lado distante das pessoas.
Partir em direcção à saudade de novos lugares.
Marear.
Voar.
Andar.
Ter um coração teimoso como o horizonte:
não se deixar agarrar.
Ir.
Ser o que faz falta.
Ser o motivo,
a vontade,
de alguém
(v)ir.

 

 
PedRodrigues

sábado, 31 de outubro de 2015

Meteorologia


Passeio pelas ruas, assobiando e exorcizando os pensamentos que me atormentam. Por todo o lado, o teu nome em placas e néons  que iluminam a noite densa. Na meteorologia, previsões de aguaceiros fortes em todo o litoral. No entanto, nem um pingo. Nada. O tempo é imprevisível. A vontade também. Saí de casa na esperança de te dizer que acabou e agora tudo o que quero é abraçar-te. A vontade é passageira, o amor não. O amor é uma montanha-russa: deixa-nos sempre na expectativa de uma descida vertiginosa, durante a euforia da subida. Há os que fecham os olhos com medo. E os que os abrem violentamente, viciados na adrenalina. Não sei qual deles sou. Saí de casa a assobiar, decorando a cidade com o teu nome e inventando novas formas de terminar a nossa viagem. Não consegui. Estou à tua porta e começou a chover. Dás-me abrigo no teu abraço?

 

 

PedRodrigues

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

M. de Outono


De todos os Outonos que caem do céu, em chuva, lá fora, quero-te a ti. Tu, com os teus cabelos que se perdem entre as cores das folhas deixadas pelas árvores e a esperança de um espaço partilhado a dois no meio da tempestade. Lá fora tudo remexe e se desfaz. Tudo se prepara para novas noites de frio e aguaceiros. Novos finais, novos começos. Cá dentro, entre os lençóis, o barulho da chuva. O telemóvel pousado ao meu lado na expectativa das tuas palavras. Um silêncio enorme. Só o vento e o martelar dos dedos no teclado. Vou dedilhando o que sinto pelo teu sorriso cor de pérola que, se fosse poeta, diria que acontece velozmente. Não sei o que desse lado tu pensas da chuva, nem do Outono, nem do Inverno, nem de mim. Talvez me vejas ao longe, como uma possibilidade distante de algo. “Talvez”, pensas tu. “Talvez”, também eu penso. A vida é matreira e vai pregando partidas. O coração ainda bate, mas já foi cosido algumas vezes. As marcas servem para lembrar, especialmente nestes casos. Se eu fosse a chuva, não tinha medo do chão. Todos acabamos por nos despenhar em alguém. Talvez o meu Outono sejas tu. Talvez o teu Outono seja eu. Não sei. Preciso de o ouvir da tua boca. Gritado entre o barulho do vento e do céu chorado. Das sete cores do arco-íris, escolho as tuas. De todos os beijos do mundo escolho os teus.
Basta me dares a mão e dizeres que sim.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Há pessoas

Há pessoas de chegar,
e pessoas de partir.
Entre umas e outras,
há as pessoas que,
de facto, nos interessam:
há pessoas de ficar.

PedRodrigues

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Amor vs Relações


No outro dia, enquanto vinha no metro, vi um casal de jovens, pareciam-me namorados, cada um no seu banco, agarrado ao seu telemóvel, a sorrir de soslaio para o ecrã. Ao olhar em volta, vi um casal idoso, com muitas rugas partilhadas, de mãos dadas, a conversarem, muito felizes. Reparei, nesse momento, que há um abismo enorme entre o amor e uma relação. Talvez não seja um problema de gerações. Mas eu pergunto-me: onde está o amor? Já ninguém o procura. Já ninguém o quer. Depois lembro-me de outras pessoas, noutros lugares e imagino que esteja muito na moda ter uma relação: construir algo estável ao lado de alguém. Nada contra. Mas onde está a vertigem do sentimento? O viver no fio da navalha? A necessidade de descoberta e a adrenalina da queda livre? Partilhar tudo isto com alguém. Pergunto-me: de que será feita a vida amorfa desses casais? Será que se divertem a contar borbotos em silêncio? Não se olham nos olhos. Não se beijam com vontade – um beijinho na cara, sem jeito. Nada para além do estritamente necessário. Pensamentos pecaminosos com os colegas de trabalho. Falas às escondidas nas redes sociais. Tudo muito ao lado. Tudo muito forçado. Tudo muito feito das necessidades do quotidiano. Parece que já não há amor: há a conta da luz, a conta do gás, a conta da água e a renda de casa para pagar. E o amor que se amanhe no canto dele, escondido entre os borbotos que teimam em se multiplicar.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O casamento


De longe olhamos momentos que, embora sejam também nossos, não o são totalmente. Pertencem a outros, com toda a bagagem que os outros souberam guardar e juntar ao longo do tempo. Ao longe somos apenas espectadores atentos. Pessoas que podem chorar ou arrepiar-se com as palavras e os gestos. Vi aquele beijo como um desses gestos. Uma leveza lindíssima entre a testa dela e os lábios dele. Vi a forma como ela lhe ofereceu esses centímetros de si e, nesses centímetros, toda ela estava a entregar-se ao beijo dele. Vi, ali, o mais belo sinal de respeito entre duas pessoas. A inocência de um simples beijo, a sinceridade, a jura de vermelho sangue para a vida. Talvez o tempo, essa coisa que se move sem darmos conta, desgaste esse beijo. Talvez haja guerras, momentos menos bons. Mas acredito firmemente na força dinâmica daquele beijo. O vestido branco, o laço dele. Os sorrisos. A alegria de todos os que os rodeavam naquele momento. Há momentos que, embora sejam também nossos, não o são totalmente. Talvez mais ninguém tenha reparado na sinceridade do gesto. Encararam como apenas um símbolo necessário para lacrar a legalidade da cerimónia. Mas eu vi. E acredito na intemporalidade destas coisas. O amor está escondido nas trivialidades do dia a dia. É nas pequenas coisas que ele se decide. Um dia o vestido, o laço, as cores garridas dos convidados serão apenas recordações. Fica apenas o beijo. A repetição diária dessa coisa que parece tão pequena e, no entanto, é grande o suficiente para ligar duas pessoas uma vida inteira.

 
PedRodrigues

domingo, 4 de outubro de 2015

Domingo eleitoral


Há pouco, enquanto exercia o meu direito de voto e olhava, apalermado, para a quantidade de quadrados disponíveis naquela folha, percebi a prisão em que vivemos. Não vivi no tempo da ditadura, portanto não sei o que isso é. Vivo numa outra geração. Uma geração pálida, formatada pelas televisões e pelos meios informáticos. Somos livres e, no entanto, estamos tão presos. Não tenho o direito de fazer comparações, daí não as fazer. Falo neste momento. Na escuridão em que vivemos. O problema desta escuridão é que qualquer vestígio de luz pode parecer a solução. Não é. Aliás, pensar assim é demasiado perigoso. Nem sempre a primeira luz, depois da escuridão, nos aponta o caminho. É aí que entra a nossa consciência. É aí que entra a necessidade de olhar, pensar, agir. Falam-nos de esquerda e direita. Falam-nos em orçamentos de estado e outras coisas que parecem muito concretas e, no fundo, são demasiado abstractas. O que eu vejo – e repito, para que leiam bem: o que eu vejo – é uma prisão num pedaço de papel. Se fossemos, mesmo, livres, o boletim de voto não teria não sei quantos quadrados desejosos de uma cruz. Seria uma folha em branco. Eles que são o problema, acenam-nos com a ideia que são a solução. Serão? Não me vejo como um anarquista. Não o sou. Mas tenho plena consciência do terror escondido atrás das cores políticas. Tenho consciência dos que sofrem todos os dias. E dos outros que vivem no topo das suas torres de marfim, com todas as regalias, alheios ao que se passa cá em baixo. Não votar não é uma opção. Mas quando todas as opções são más, em quem hei-de eu votar?
Cuidado com a luz. Oxalá ela não nos cegue.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Textos da nova cidade


Hoje senti necessidade de te escrever. Agora que não estás e eu me mudei para outra cidade, com cores que já não são as nossas. Aqui não temos memórias dos nossos dias juntos. Começo um novo referencial, com novas oportunidades, novos objectivos. Tanta coisa. Tanta coisa. No entanto, vieste comigo na bagagem. Escondida entre a escova de dentes e o perfume que me deste. Vieste comigo e não estás aqui. Não faz sentido. Nenhum. Mas raramente as coisas fazem sentido. Às vezes construímos silêncios que nos afastam, como se fossem uma distância muito grande; e, no fundo, o que queremos é apenas um abraço: a necessidade de uma presença embrulhada em nós. Esperneamos, esmurramos e só queremos uma segurança, algo a que nos possamos agarrar. Olho o rio da janela, ao fundo, luzes que rompem o vazio da noite, e tudo o que queria era ter-te aqui. A certeza de uma conversa no mesmo metro quadrado, no mesmo espaço. Se possível as nossas mãos dadas, ou um olhar. Era isso que queria. Não estou a pedir muito, ou estou?

 

 

PedRodrigues

domingo, 6 de setembro de 2015

No recreio da escola


Ainda penso no beijo
que te não dei
naquele dia
no recreio da escola.
Na altura só queria
jogar ao berlinde, ou
futebol no campo verde
Não ligava a essas coisas
das meninas, ou do amor.
Tu só querias um beijinho
como os que vias
nas novelas das sete
E eu queria ser melhor
que o Maradona
ou o melhor jogador
de berlinde do recreio.
Mas um dia por capricho,
ou outra coisa qualquer
decidi pedir-te um beijo
Tu ignoraste-me
Ainda me lembro
das dores de barriga
por me teres rejeitado.

 
O amor era uma coisa
muito estranha,
naquele tempo.
Ainda é.

 

PedRodrigues

 

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Último texto de Agosto


Preferia que me tivessem dito que os monstros debaixo da minha cama, afinal, existem. O céu também pode ser pintado de vermelho e o mar, ao fim e ao cabo, não tem cor. Os baralhos não têm apenas cinquenta e duas cartas. E os arco-íris nem sempre se entendem nas sete cores.
Preferia que me tivesses dito “boa noite, até amanhã”, em vez de “adeus, até um dia”. Ou me tivesses beijado na testa com carinho, em vez de na boca com desprezo. Se a vida fosse fácil, as lágrimas não seriam choradas para acalmar a dor. Nada nos é dado de mão beijada. E nem sempre a sorte conspira a nosso favor. A luz nem sempre é imensa, mas até a estrela mais pequena pode iluminar uma noite escura.
Preferia que me tivessem alertado sobre os monstros vestidos de gente que caminham entre nós. Tudo seria mais fácil. O medo da solidão é imenso, mas indiferença no teu olhar sufoca-me. És um monstro vestido de homem: ficas, mas nunca estás. Consomes-me devagar, como um veneno dado em pequenas doses. Nem sempre amamos quem nos faz bem, é certo e sabido. E o céu, no fundo, também pode ser pintado de vermelho. O alerta está dado.

 

PedRodrigues

terça-feira, 25 de agosto de 2015

[No caderno preto]

É onde eu começo
e tu acabas
que olho para nós
e me encontro
Porque não há em ti
esquinas suficientes
para dobrar a minha vontade
de te ter
Aqui. Por perto.

PedRodrigues

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ânsia


Só queria novamente um
minuto do teu abraço.
Algo que me fizesse
recordar o comprimento exacto
dos teus braços em volta
de mim. Foste um momento
que continuo a recordar
no silêncio.
Há quem me ache maluco
por rir sozinho,
ou falar sozinho,
ou cantar sozinho.
Mas quando choro sozinho
todos se fecham em copas.
(Todos choramos sozinhos – ou
quando achamos que ninguém
nos está a ver)
As piores lágrimas que chorei
foram por ti
e pela saudade do teu abraço.

 
Não há nada pior
que ansiarmos por algo
que não voltaremos a ter.

 

PedRodrigues

terça-feira, 18 de agosto de 2015

[Notas perdidas pelo telemóvel]

Nem sempre amamos quem nos faz bem.

Por vezes,
trazemos a pessoa errada
no peito;
e a certa na palma
da mão.

PedRodrigues

domingo, 9 de agosto de 2015

Filosofia barata


 

Devagar percebi que nem sempre um sorriso significa que estejamos felizes. Nem sempre uma mão nas costas significa alento. Nem sempre um beijo é sinal de amor. Devagar percebi que as pessoas são possuidoras de uma capacidade impressionante para o disfarce. Que o ser humano é cruel sem razão aparente e dono de um sadismo sem igual. Devagar a vida ensinou-me a prestar atenção ao que me rodeia; a separar o trigo do joio. Nem todos os que te estendem a mão te querem ajudar a levantar. Nem todos os que te gabam na cara, te defendem nas costas. É preciso saber distinguir quem te quer realmente bem, quem te procura na bonança e não te despreza na tempestade. Os teus sucessos nem sempre serão festejados por todos. Haverá sempre quem se roerá por dentro, à espera que tropeces na primeira oportunidade. Não lhes ligues. O caminho é feito por quem o caminha, e todos podemos tropeçar: faz parte da nossa natureza, da nossa fragilidade. O que distingue os vencedores dos vencidos é a capacidade de perseverança. Esta é uma lição importante. De tanto esfolar os joelhos aprendi a cair. E em cada queda percebi que havia a possibilidade de me levantar, mais e melhor. Talvez isto soe a filosofia barata, ou a um discurso de algibeira desses profetas do culto do eu, mas a verdade é esta, por mais quadros que pintem em volta dela. Aprendi com o tempo a prestar atenção aos cheiros da humidade do cair da noite, às cores apaixonantes de um nascer do sol. A vida ensinou-me a estar atento, a ter cuidado. Fazer parte de algo, não quer dizer ser consumido por algo. Não nos deixemos enganar. Se dentro de nós fizer sul, não nos percamos noutros nortes.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Às mulheres de armas

[Excertos perdidos pelo computador: início de 2015]
 
 
Aqui não há princesas, pensou. Há mulheres de carne e osso, falíveis como qualquer outra criatura. Não há contos de fadas – isso são coisas da inocência. Sorriu. Nem tudo na vida nos faz chorar.  Os dias começam quando metemos os pés no chão. Vestiu-se e saiu à rua. Sem se preocupar com essas trivialidades sociais: estar bem vestida, ou bem maquilhada, ou outra coisa qualquer. Aqui não há princesas. Há mulheres de armas: marias dos canos serrados. Mulheres que levam a vida à lei da bala. Talvez isto seja mais um filme de acção, que um romance de domingo à tarde. Daí se ter vestido de ela mesma. Enquanto se olhava ao espelho, pensava: és tu que importas. Decidiu meter-se em primeiro lugar. Apagou o número dele do telemóvel, olhou as horas e percebeu: está na hora de ser feliz.

 

PedRodrigues

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Voltei a sonhar contigo


As tuas fotografias
são uma ameaça
à minha sanidade mental.
Disseram-me que o tempo
diluía a imagem do teu rosto;
as memórias dos passeios
de mão dada junto ao rio.
Mas o eco das nossas conversas
ainda me persegue.
Foste embora,
Sem nunca teres ido embora
Agora a certeza fria desse
passado atormenta-me
Não me abanem
Posso estar só
a sonhar...

 

PedRodrigues

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Valsa lenta


Às lágrimas da Tiz

 

 

Não leves quem nos ama. Temos medo de ficar sozinhos. O tempo não cura nada: ameniza, mas não cura. A dor da perda mantém-se. Nada traz de volta os sorrisos, nem as longas conversas no sofá, nem os gritos por ter feito alguma travessura. Devagar o tempo entre nós e essas recordações: fica o vazio. O quarto sem a presença humana, gelado. Nada. Devagar apenas as fotografias pela casa. O teu sorriso. Devagar o teu sorriso escondido por dentro, atrás dos olhos, onde mais ninguém o vê. Devagar as saudades: esse aperto fogoso no peito, essa coisa miudinha que parece atormentar mais quando as luzes se apagam. Devagar as viagens até ao cemitério. Os beijos na pedra. Os pedidos de guarda, aí de cima – será que estás aí? Fazem-nos acreditar que desse lado, vocês nos guardam. Talvez seja uma forma de nos reconfortarem. Há um conforto estranho que encontramos nas mentiras. E por vezes mentimo-nos para mitigar a dor. Ela continua. Continuará. É a diferença entre o teres estado e o já não estares. Por muito que chore, por muito que grite, por muito que peça a todos os anjos e santos, não voltarás. O calor dos teus abraços desfez-se. O toque dos teus lábios na minha testa não passa de uma memória. E os teus gritos, avó? O toque áspero das tuas mãos? O timbre da tua voz a contar histórias de outros tempos. A que soava a tua voz? Era às ondas, avó? Era ao vento de inverno, ou à brisa de verão? Faço tanta força, às vezes, para recordar todos os teus tiques. Depois lembro-me das tuas manias a fazeres a sopa. Tardes inteiras dedicadas aos legumes, à água, ao azeite. Aquele truque, avó. Aquele truque que lhe dava a consistência certa, o paladar exacto. E as saudades desses dias que foram nossos, esse tempo exacto em que tudo estava completo. Ficou a tua ausência, avó. O murmúrio do passado sussurrado ao meu ouvido. Não leves quem nos ama. Não leves quem amamos. Deixa-nos ficar aqui a contar histórias e a sorrir eternamente. O tempo das ondas lembra-me todos os amores que um dia caminharam de braço dado comigo. Tenho tanto medo de ficar sozinho...

 

PedRodrigues

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Balada sobre o terrorismo amoroso


Tem cuidado.
Com os que te dizem ao ouvido tudo aquilo que queres ouvir.
(São os que mais te enganam.)
Com os que te prometem a eternidade.
(São os que menos tempo têm.)
Com os que conjugam o verbo “amar” ao desbarato.
(São os que menos sentem.)
Tem cuidado.
Porque a vontade é passageira, porque quem mendiga por amor, corre o risco de acabar magoado.
Há muito lobo em pele de cordeiro. Muito cabrão em pele de namorado.
Tem cuidado.
E os que jogam ao amor, brincam às relações, ou partem quando deviam ter ficado...
Obrigam-nos a pensar que devemos viver com o coração trancado.
É por isso que te digo, meu amor:
Por favor, tem cuidado.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Adeus às árvores


Digo adeus às árvores e avanço. O caminho já tem algumas folhas caídas e cheiro a terra molhada. Olho o céu e procuro os pássaros. No meu peito eles não cabem, e talvez por isso eu não seja capaz de voar. Pergunto-me várias vezes por que motivo continuamos a fazer as mesmas coisas, a repetir os mesmos erros. Talvez percamos demasiado tempo a combater os monstros que vivem dentro de nós. Uma voz aponta-me sítios que havia esquecido. Um dia fui jovem e a minha única preocupação era viver tudo de uma vez. E de tanta pressa ter, perdi a noção do espaço e do tempo. As manhãs nasciam com cores que hoje não lembro; as noites acabavam com os copos vazios e uma nova paixão de bolso. Amores foram passando, sem que nunca prestasse verdadeira atenção aos contornos dos seus lábios. Talvez nunca lhes tenha dado a atenção devida. Era jovem e parvo. Nunca tinha percebido a verdadeira beleza de acordar de manhã com alguém que amamos ao lado. Agora talvez me falte o tempo para procurar novamente essas cores que um dia foram minhas e não soube guardar – tal como ela. Agora o cheiro do Verão desapareceu. Só espero ir a tempo de sentir a Primavera. Ver o desabrochar das flores; ouvir o canto das andorinhas; aguardar que as lagartas saiam borboletas dos casulos; transformar-me.
Amanhã acordarei antes do sol nascer. Quero guardar-lhe as cores, enquanto te tenho ao meu lado. Nesta vida estamos condenados à dolorosa passagem do tempo. Talvez daqui a uns anos não acorde com dores no peito. Dizem que a saudade é isso: um aperto no peito. Estamos sempre a aprender.

 

PedRodrigues

sábado, 4 de julho de 2015

Ao Porto


Da cidade ficam as imagens das casas emparelhadas umas nas outras, formando um quadro de cores, ou uma espécie de poesia urbana que se entranha por dentro. No rio bóiam barcos e recordações de um país com pronúncia do norte. Há, neste espaço, uma simpatia palpável. As pessoas são calorosas e olham-nos nos olhos, sem medo. A beleza da cidade do Porto só é superada pelo calor humano das suas gentes. Gosto de pessoas assim, sem medo de serem autênticas. Gosto de quem cumprimenta um desconhecido com um “bom dia” e um sorriso genuíno. Sabe-me bem. Faz-me sentir em casa, mesmo estando a centenas de quilómetros. É isso que me atrai no norte: as suas pessoas. Não só a sua beleza. Porque as cidades não vivem de si, mas de quem nelas habita: são feitas de gente. E as gentes do Porto são feitas de norte. Esse norte tão frio que as torna tão calorosas. Há, realmente, um Porto onde se morre de amor. Uma cidade que se dissolve nos corações de quem nela habita. E é transmitida e reproduzida fielmente em cada canto, no sotaque carregado das conversas de rua. Ou nos gestos e na bondade dos nortenhos. Há um Portugal suave, aqui. Um espaço onde sonhar é permitido.

 

PedRodrigues

sábado, 27 de junho de 2015

[Sem título]

Não peço a ninguém para entrar;
não obrigo ninguém a ficar;
não gosto que se demore,
quem deseja sair.

PedRodrigues

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Lição de combate número dois


Tentei aprender contigo o canto das sereias. Diziam ser um perigo. Uma mulher que nos encanta, é uma mulher que nos mata. E essa morte é lenta, quase como um sono manso que se apodera de nós sem darmos conta. Quando nos apercebemos já estamos demasiado presos. As nossas horas começam a medir-se numa escala diferente daquela que nos ensinaram: não há tempo: horas, minutos, segundos. Tudo se passa a medir em silêncios, fôlegos, vontades, conversas, cheiros. Tudo se passa a medir em ti. Tudo é feito de ti. Não só o como, ou o porquê, também o quando: “quando ela me olhou”; “quando ela me beijou”; “quando ela me tocou”. Agora os instantes são feitos do teu canto, ou do teu silêncio. E realmente não sei o que será mais perigoso: se a forma como me embalas quando me falas; se a forma como sinto a tua falta quando nada dizes. É um perigo permitirmos que alguém controle a nossa vida. Mas eu rio-me face ao perigo.

 
PedRodrigues

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ironia

[Notas perdidas no telemóvel]

Nem sempre amamos quem nos faz bem.

Por vezes,
trazemos a pessoa errada
no peito;
e a certa na palma
da mão.

PedRodrigues

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Arquitectura


Gostava que o amor,
hoje em dia, fosse como
algumas obras arquitectónicas.
Já que nada é para sempre,
que dure, pelo menos, cinquenta
ou cem anos.

 

PedRodrigues

domingo, 24 de maio de 2015

Às mulheres que se sentem sós


Agora adormeces todas as noites sozinho. Mesmo quando encontras alguém com quem partilhar a tua cama. Nada te parece preencher. Nem os beijos, nem os toques, nem o sexo. Despes a roupa, mas pareces vestir uma armadura. Falta intimidade. Falta esse sentimento estranho de te quereres deixar vulnerável e à mercê de outrem. Sentes-te vazio. Agora talvez percebas o que te disse, na nossa última conversa. Lembras-te? Perguntaste-me se havia alguém. Se te estava a deixar para ficar com outro. Depois um silêncio enorme. Uma coisa muda, cheia de cólicas e sentimentos emparelhados ao trambolhão. Lembras-te da minha resposta? Disse que não te estava a deixar por outra pessoa. Não te estava a deixar por alguém. Estava a deixar-te porque estava farta de ficar sozinha. Compreendes agora?

 

PedRodrigues

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Croniquinha de um dia de sol


Mudei as roupas porque o Verão estava a chegar. O Inverno tinha passado. Aparentemente, tudo passa. Larguei os casacos e os cachecóis que me protegiam do frio quando não estavas; arrumei as mantas que nos aqueciam nas noites de cinema partilhadas. Preparei-me para o sol e o calor de outros dias – com outras que cores que não eram as tuas. Não há Inverno que dure para sempre. Nem dores que um dia não deixem de doer. Resolvi, então, vestir-me de acordo com o tempo que se fazia sentir lá fora. Preparei-me para as noites amenas de luares exóticos; os céus vestidos de azuis joviais; os mares pintados de fogo ao final do dia; os pés na areia, o corpo no mar... Meti na cara o meu melhor sorriso. Reencontrei o meu melhor olhar – aquele que um dia disseste desarmar-te, e que julgava ter perdido para sempre. Levantei a cabeça e caminhei. Caminhei. Às vezes só é preciso um dia de sol, para percebermos que o cinzento da vida é passageiro.

 

PedRodrigues

domingo, 17 de maio de 2015

Coração


Há amores que se perdem
Porque o coração
Não tem sentido de orientação.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Às rosas


 
Aprendeu a proteger-se.
Anos depois de uma vida partilhada; anos depois do primeiro beijo
no recreio do liceu; anos depois do primeiro amor – aquele que julgou ser para sempre
e a quem, pela primeira vez se entregou; anos depois
das primeiras lágrimas, e das segundas, e das terceiras.
Aprendeu. Tudo o que é belo é mais vulnerável.
Talvez por isso, às rosas tenham crescido os espinhos.
Para que se possam proteger das constantes ameaças.
Há quem lhe chame evolução. Eu chamo-lhe
A lei da vida.

 

PedRodrigues

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Insatisfação

Chegámos aqui. Somos o produto de gerações atrás de gerações desde o início dos tempos. Tudo o que nos rodeia se transforma. O tempo é nosso, assim como foi de todos os outros, um dia. As estruturas evoluem, as máquinas evoluem, as sociedades evoluem. Todas ao seu ritmo, levando o seu tempo. A insatisfação obriga-nos a avançar.
Chegado a estes dias, olho para as pessoas com uma desconfiança terrível. O mundo está aí, diante dos nossos olhos. A evolução tecnológica, disseram-nos, iria libertar-nos do marasmo da ignorância. Seria esta, de certa forma, a resposta para todas as dúvidas. Disseram-nos que teríamos o mundo na ponta dos dedos, à distância de um clique. E temos. Aquilo que nos esquecemos é que atrás da máquina está a vontade do homem. A vontade de conhecer é uma energia demasiado complexa para caber numa máquina. Cabe, a cada um de nós, encontrar essa vontade de rumar ao desconhecido, em busca dessa Índia perdida. Ao que parece, não é fácil. Cada vez mais nos afastamos da cultura, como se fosse um cancro que nos irá consumir lentamente. Não sei quem culpar: se a nós mesmos, se aos meios de comunicação social e o poder político (que ao ouvir a palavra cultura treme de medo). Todos os dias a língua portuguesa é espezinhada pelo uso de expressões ocas e frases mal construídas. O pretérito confunde-se com o presente e, no entretanto, os nossos antepassados revoltam-se connosco. Pergunto-me o que pensariam Camões, Bocage, Fernando Pessoa, se hoje vivessem nesta era digital.
Tenho o maior orgulho em fazer parte do povo que descobriu o mundo. Tenho o maior orgulho na beleza das palavras escritas no nosso português. E se inventássemos esse mar de volta?
Medo. O meu medo é este: a desumanização. Olhemos em volta. Há tantas desgraças tão perto de nós e, no entanto, preocupamo-nos mais com os problemas de alguém que não conhecemos e que nos pede ajuda pelo Facebook e esquecemo-nos das pessoas que estão ao alcance dos nossos olhos, dos nossos actos e que, igualmente, precisam da nossa ajuda. Ao que parece, há um agravamento exponencial das desgraças quando acontecem atrás de um ecrã.

Sigamos na esperança dessa insatisfação que parece ser o motor dos povos. Conscientes da nossa ignorância, não como uma bênção, mas como um catalisador. Sigamos em frente de coração na mão, atentos ao que nos rodeia e a tudo o que acontece. O mundo é isso mesmo, não é? E não nos esqueçamos dessa verdade universal: deste lado, os olhos também choram. Não?

PedRodrigues

domingo, 3 de maio de 2015

Poeminha

Procurei no teu corpo
falésias
onde pudesse cair
ou aprender a voar.
Confesso o medo
da vertigem:
quem sabe se não me
despenho
e parto o meu coração.
 
PedRodrigues

terça-feira, 21 de abril de 2015

Depois da tempestade, remar duas vezes

O que incomoda muita gente é a possibilidade de reconstrução que cada um de nós tem. A maior vitória que podemos dar a nós mesmos é a perseverança, o progresso. As versões actuais são melhores que as anteriores. É isso que realmente incomoda essas pessoas destrutivas: olharem ao longe, enquanto nos reconstruímos, mais e melhores, imunes à sua existência. Lambemos e curamos as feridas, mas não as esquecemos. Usamo-las, como se fossem uma armadura que nos protege dos erros do passado. E guardamos em nós essa verdade, que por vezes ainda pode doer: as pessoas que nos destroem, nunca serão as mesmas que nos constroem.
 
PedRodrigues

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ela

O que mais me atraía nela, não era o sorriso cor de pérola ou a forma como lançava uma gargalhada fácil, nas situações mais embaraçosas. Não era sequer a forma como por vezes me olhava: perdida em não sei quantas concepções e cenários românticos montados por dentro. Há mistérios que não têm solução. Silêncios que pertencem ao silêncio e não podem ser quebrados. Creio que era isso que me mais me prendia a ela. Esse mistério. Como por exemplo, a sua cor favorita serem as ondas. Ou tudo aquilo que não fazia parte desta geração, tudo aquilo que não era do nosso tempo, lhe assentar como uma luva. Há pessoas assim: incomuns. Gentes curvas, num mundo recto. Feitas de pequenas partes de matéria, que parecem não fazer qualquer sentido e, no entanto, arrastam-nos e absorvem-nos como se fossem uma necessidade que precisamos de satisfazer. Ela era uma dessas pessoas.
 
PedRodrigues

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Coimbra, no momento da partida


Lembro-me da primeira vez que te vi realmente: vestida de negro e iluminada por uma lua enorme cor de pérola. Senti uma certa vertigem cá dentro, um orgulho imenso que ainda hoje não consigo explicar. Nesse momento percebi o verdadeiro porquê das baladas, do choro das guitarras. Observei a disposição de cada edifício; a universidade lá no alto; a cabra a guardar cada canto, cada pedra. Senti-me em casa, no verdadeiro sentido da palavra casa. Como se fosses uma extensão física de mim. Uma necessidade lógica de viver para lá do meu corpo.
Desde esse dia até hoje, passaram-se anos. O tempo é inevitável. Passa por nós e vai-nos transformando aos poucos. Mas há coisas que ficam marcadas por dentro. Coisas que guardamos de forma a que sejam eternamente nossas. De ti guardo todos os momentos que me trouxeram até aqui. Os joelhos esfolados das quedas que me foram tornando mais forte. As conversas partilhadas entre os amigos que me apresentaste e que guardarei para a vida. As gargalhadas e as bebedeiras dessa juventude sónica que parece ter passado a correr. Os primeiros sorrisos dos amores começados à beira rio; as últimas lágrimas choradas em bancos de jardim por esses mesmos amores. De ti guardo esse ponto cardeal que será para sempre a minha juventude. O porto de abrigo necessário que continuarei a procurar e a recordar ao longo da vida. Guardo essa ténue linha que separa essa mesma juventude da idade adulta. A metamorfose de quem entra menino e sai homem. Guardo de ti essa saudade dos passeios nas tardes de primavera. O calor infernal das tardes de Junho. A beleza das tuas entranhas feitas de pedras históricas e conhecimento. A alegria dos cortejos de caloiros e finalistas. Guardo de ti as músicas cantadas em uníssono de copo na mão. A capa negra que me lembrará para sempre dessa primeira noite em que te vi com olhos de gente; a mesma capa que um dia vesti com tanto orgulho.
Ficará muito por dizer. O silêncio guarda as melhores palavras, as melhores histórias.
Dizer adeus a algo - ou alguém - que amamos será sempre doloroso. Deixar para trás o que conhecemos, o que faz parte de nós, exige um esforço sobrenatural. Mas tudo tem o seu tempo. Nada é para sempre. Chegámos ao fim da canção. É hora de partir com a certeza desse passado. Com a certeza desse futuro que começou em ti. Do mais fundo de mim, agradeço-te por tudo. Por me teres acolhido e moldado à tua imagem.
Obrigado, Coimbra. Esta lágrima que choro, é feita de ti.
 
PedRodrigues

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Os Invisíveis


Então corri a calçada da cidade como se me pertencesse. Olhei. Pessoas apressadas, de passada larga, pessoas de outras terras, outros lugares, a admirarem tudo à sua volta, de máquina fotográfica em posição de disparo: monumentos, casas, estradas, o céu. Admiravam tudo, menos aqueles que julgavam invisíveis. Almas perdidas pelos cantos da cidade. De palmas abertas à procura de uma esmola: para matar a fome: de comida, de droga, de álcool, de tabaco. Alguns pareciam-me perdidos no momento. A pobreza e a solidão não têm relógio, ao que parece. As noites são frias, os dias são quentes. O mundo acontece à sua margem. Alguém se esqueceu deles. Talvez porque a pobreza seja um embaraço. Talvez porque o medo da queda, para quem olha de cima, é enorme. À sua volta há gargalhadas. Miúdos de sacos carregados de coisas que provavelmente não necessitam. De telemóvel na mão, a mandarem a próxima mensagem sem sentido. Quem os pode censurar? Não têm preocupações ou necessidades, mas a culpa não é deles. Não foram os seus telemóveis topo de gama que apagaram estas pessoas da sociedade; não foram eles que os marginalizaram. A culpa morreu solteira – sempre ouvi dizer. A cidade é um organismo vivo que nos absorve. Há quem caia e quem se levante. Há quem viva para as fotografias nas redes sociais, e quem nem saiba o que isso é. Ninguém pode culpar uns, ou outros. É a ordem normal do mundo. O desequilíbrio que me custa engolir. Neste momento, enquanto escrevo esta crónica no meu computador, há quem  esteja a contemplar o céu, nesta noite amena de primavera. Imagino-os a sonharem com outro tecto sobre as suas cabeças. Imagino que não sonhem com a sua fotografia nas redes sociais, ou com a sua cara no jornal das oito. No entanto, acredito que eles queiram ser vistos. Nem que seja aos poucos, como se as pessoas estivessem agora a acordar, de olhos ainda remelosos. Sempre me disseram que todas as coisas que existem têm uma sombra. Talvez eles sejam a sombra desta sociedade injusta. Quanto maiores formos, maiores serão as nossas sombras – é física, pelos vistos.

 

 

PedRodrigues

sexta-feira, 27 de março de 2015

Lição de combate número um


E depois a luz arranja-se entre os buracos da persiana. Os sonhos arranjam-se por dentro, com vontade de nos juntar a eles para sempre. Mas temos de acordar. Abrir os olhos. Poisar os pés no chão. Não sentir a terra a girar: saber, apenas, que é assim. Há mais vida para lá dos sonhos. É esse, talvez, o flagelo da realidade. Não podemos abrir novamente os olhos quando as coisas não correm bem. A realidade é uma certeza dolorosa. Aqui, no chão, não há deuses que nos valham. Anjos que nos acudam. A terra gira. Somos forças dinâmicas, capazes de moldar a nossa realidade. Motores de carne e de ossos, movidos pela vontade. Nada na vida está perdido totalmente. Para o futuro há que aprender com o passado. Nada na vida se perde totalmente. Pelo menos, é a forma como eu olho para as coisas. Desejando reparar os erros do passado num futuro que ainda vou sonhando. Depois a luz teima em aparecer. Abro os olhos e percebo o poder do sonho e do tempo. As feridas que não nos matam, acabam por sarar. E um dia acabaremos por usar essas marcas com orgulho. Porque é isso que os guerreiros fazem. Mostram que venceram a morte, com um sorriso no rosto. Mostram que sangraram durante a batalha, mas venceram. E nós somos uns guerreiros do caraças, não somos?

 

PedRodrigues

sábado, 21 de março de 2015

Lembrei-me do amor, a esta hora da madrugada


Pensou: não há nada pior que alguém que te rasgue por dentro, alguém que te roube o melhor de ti, alguém que te apague o sorriso e a vontade. Nem sempre a vida é a direito. Os precipícios existem para nos despenharmos a duzentos quilómetros por hora, ou aprendermos a voar. As falhas são inevitáveis. Os erros são inevitáveis. O desamor é inevitável. Às vezes. Tantas vezes. A melhor forma de apagar quem dói é chegarmos à conclusão que não merecemos essa dor. Evitar. Erguer. Olhar em volta e percebermos a necessidade de voltar a respirar o ar puro que é a esperança. Acordar o sangue nas veias para que volte a vibrar pelo corpo. Preencher os vazios com a beleza dos dias que acontecem à nossa volta. Respirar. Com vontade genuína de viver. Sem fantochadas. Guardar as lágrimas na algibeira - se vamos chorar, que seja por algo, ou alguém, que valha a pena. Se vamos berrar que seja por alguém que nos queira ouvir. Se vamos amar que seja por alguém que mereça esse amor. Talvez porque a razão não escolhe. Talvez porque o coração não escolhe. Talvez porque depois de carregada, essa arma só pode ser disparada. Cuidado. Antes viver de amor, que morrer do mesmo. O cheiro das saudades não aparece na autópsia – dizem. E se tacteamos o precipício que seja para olhar os pássaros e aprender a voar. Quem sabe, meu amor, se não te encontro nesse voo rasante.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 12 de março de 2015

Filmes de terror


Quando tudo acaba, julgamos conseguir enterrar o passado debaixo de sete palmos de entulho amoroso. Deixar no passado o passado e seguir em frente, sem olhar para trás. Mas os fantasmas das relações passadas teimam em assombrar-nos. Especialmente à noite, antes de adormecermos, quando o mundo parece silenciar e as únicas vozes que ouvimos vêm de dentro. É nesses momentos que temos tendência a despertar todos os monstros. As falhas no julgamento, os erros de interpretação, as palavras ditas a quente, as lágrimas choradas. Há restos dos amores passados que se vão arrastando por dentro, meio vivos, meio mortos. Ainda me falam em filmes de terror... Tenho um em rodagem no meu peito.

 

PedRodrigues

terça-feira, 10 de março de 2015

Aeroporto


 
Os aviões são máquinas de partir e de chegar. Monstros de lata com asas que engolem e cospem pessoas nos aeroportos. Aqui, tudo converge: pessoas, sentimentos, objectos. Há quem fique e quem vá. Quem não saiba o que lhe espera do outro lado. Quem tenha medo. Há quem sorria de nervosismo, ou com vontade de sorrir. Os que buscam essa adrenalina de conhecer, de partir em busca de algo. Aqui há quem chegue de longe. Há quem venha apenas visitar. Há lágrimas de despedida e lágrimas de chegada. Neste ponto, tudo parece colidir. Tudo parece caber neste espaço.
A saudade é uma distância que nos une enquanto nos separa. Um vazio miudinho que nada preenche. Aqui há abraços entre pais e filhos, feições alegres e gritos enérgicos de quem espera e quem chega; lágrimas e juras de telefonemas diários, para acalmar essa vertigem da separação, mais abraços apertados que infelizmente têm um limite.
Talvez porque nada é eterno. Talvez porque tudo acaba.
Ouve-se a voz sem dono que ecoa nas vidraças e nos corações de quem ainda está. Vai partir, vai chegar. Voo atrasado de Londres. Falta pouco. O tempo é uma coisa muito grande que nos engole. O mundo nem sempre é um T0. Às vezes o mundo é só o mundo. Algo que não cabe nas nossas mãos. A possibilidade do regresso acompanha quem parte e quem fica. Um dia, pensa-se. Voltar é um verbo necessário para quem parte.
Neste local tudo converge. Sentado, aguardo a minha vez. Olho em volta: lágrimas, sorrisos, gritos, abraços, malas, pessoas, Paris, Madrid, Londres, Roma, Boston, Luanda... Imagino-me parte de tudo isto. Os dias contados para ser feliz. Os dias contados para voltar a pisar este chão. Invade-me esse frio na barriga: o medo da partida. E choro. Não de alegria. Não de tristeza. Choro por este chão que conheço e que teima em fugir.
 
 
PedRodrigues

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Breve reflexão sobre a puta da vida


Às vezes um silêncio enorme que me deixa a pensar. Todos os pensamentos misturados de negro mudo. Uma imensidão vazia, como fechar os olhos sem adormecer. Fitar os espectros da vontade de te olhar, de te ver, de te tocar. Deste lado onde nada parece igual. Onde cresço à socapa do tempo: evitando as rugas, evitando as chagas. Deixando as feridas abertas para me lembrar. Há dores que nos consomem; há dores que nos despertam. Ouvi o meu avô dizer que o mar é só muita água junta. E que no meio do mar há apenas mais mar, e no meio desse mar há esperança de terra. Esperança. Deixamos que as águas nos levem à deriva, na esperança de encontrarmos terra, mas nem sempre as correntes estão a nosso favor. Por vezes temos de remar. Dar de nós. A vida nem sempre nos sorri. Nós nem sempre lhe sorrimos de volta. Às vezes um “puta que pariu” sabe tão bem. Às vezes um pontapé numa pedra que está no nosso caminho sabe tão bem. Às vezes uma lágrima sabe tão bem – e um rio delas?
A vida é uma puta sádica que gosta de nos ver sofrer. Eu devo ser um masoquista do pior, por continuar a acreditar em dias mais felizes. Mas, se assim não for, que me resta? Desisto de remar? Deixo-me levar pela corrente até um dia me afogar na procura de terra? Fecho os olhos. Respiro fundo. Lambo as feridas. Invento um novo tempo. Começo do zero noutro referencial. Guardo a bagagem. Não a apago. Recordar os erros é meio caminho andado para não os voltar a cometer. Feridas abertas que nos destroem ou constroem.
(Reparei agora que, ao longe, consigo tapar a lua com as minhas mãos.)
Não tenho medo daquilo que o futuro me reserva. É esta adrenalina de não saber que me dá vontade de seguir em frente. O chão é construído e pisado e caminhado. As chuvas limpam a poeira, mas não apagam os passos. As luzes da cidade iluminam o que a escuridão queria esconder. Há putas e poetas e pessoas que morrem de amor. A uma certa distância, tudo isto nos pode parecer pequeno. A uma certa distância, todos parecemos mais pequenos que aquilo que realmente somos. Não nos enganemos. Ao longe, a lua cabe na palma das nossas mãos. E a lua é enorme. Não é?
 

 

PedRodrigues

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Tentar esquecer

Tentar esquecer deve ser das coisas mais difíceis do mundo.
Durante a nossa vida, esquecemo-nos de tantas coisas. Coisas banais: como as chaves do carro, ou da casa, o sítio onde deixámos aquele número apontado, que agora nos faz falta, de uma ou outra data de aniversário. Esquecemo-nos de tudo, menos daquilo que nos queremos esquecer. Obrigar a esquecer é um exercício que desafia a lógica. Temos a mania sádica de guardar as mágoas. De repetir a angústia dos momentos tristes, como se o botão de repetição estivesse encravado. De reviver os momentos que um dia foram uma alegria imensa, mas que agora apenas se arrastam por dentro como fantasmas dispostos a atormentar-nos de cada vez que as luzes se apagam. O amor é um bicho do caraças. Quando amamos com as tripas de fora – a única forma de amar que conheço -  julgamos que a nossa felicidade será, para sempre, à prova de bala. Mas até os amores à prova de bala podem ser feridos mortalmente. Somos definidos pela nossa fragilidade. As nossas relações acompanham-nos. Aqui, no campo de batalha, no meio da lama, todos podemos cair: a perfeição serve apenas para nos obrigar a olhar em frente. O que fica depois da queda, além da lama no rosto, são as recordações, as memórias, as chagas. Tentar esquecer, deve ser das coisas mais difíceis do mundo. Obrigar o coração a avançar é impossível: deve ser por isso que ele bate por conta própria. Um dia partilhámos beijos, carne na carne, palavras de amor, alma na alma, momentos, cidades, imagens, danças, sorrisos. Como podemos obrigar-nos a esquecer quem amámos, quando aquilo que queremos esquecer, é aquilo que os faz ficar? São estes paradoxos que nos desgastam por dentro. São estas as cólicas que nos deixam a pensar: se o amor é uma máquina de criar monstros, talvez o melhor seja amar de caçadeira na mão. E no entretanto entre este pensamento e a próxima insónia, acabamos por esquecer tudo isto. Caímos na armadilha e voltamos a dar de nós. Porque, apesar de tudo, o amor é necessário. Um dia há-de ser de vez. Ninguém sai daqui vivo – li eu, um dia destes. 

(Um sorriso, depois do ponto final.)

PedRodrigues

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Perspectiva


Já reparaste que o sol nasce para, no final do dia, desaparecer?
A neve cai para, mais tarde, derreter?
As folhas crescem nas árvores para, um dia, se despenharem no chão?
E já reparaste bem na beleza de um pôr-do-sol; das flores escondidas, que aparecem
depois de a neve derreter; das ruas vestidas com o castanho das folhas caídas no chão?
 
Talvez a beleza do mundo esteja dentro dos olhos de quem a vê.
Já reparaste, mesmo, nisso?
 
PedRodrigues

Coragem


Então quis dar voz às palavras não ditas. Aos poemas não escritos. Às cidades não visitadas. Às madrugadas não partilhadas. Quis procurar o erro, no meio dos erros: as vírgulas que deviam ter sido pontos finais. E dei por mim a lamentar às escondidas - como se pudesse guardar todas as mágoas do mundo - os tropeções e as quedas. O que mais custa numa queda é o impacto do corpo com o chão, o perceber que nos podemos despenhar, que o nosso corpo não é tão duro como julgamos. A nossa fragilidade é uma fraqueza. Ninguém gosta de ser fraco – muito menos parecer fraco. Mas é no meio dos tropeções que nos aprendemos a levantar e a andar. A atenção ao detalhe é tão necessária como os passos que nos obrigam a avançar. Na cadência dos dias que acontecem não há lugar que não queira, um dia, visitar. Não há amores que não queira, um dia, viver. Nem sempre podemos dar razão ao coração. Às vezes é preciso coragem no meio da vertigem. A queda é garantida. O que fazemos depois, depende de nós. Não há castelo que se construa sem a primeira pedra.

 
PedRodrigues

domingo, 25 de janeiro de 2015

Avançar

Às vezes é preciso partir
Deixar para trás o que não faz falta
Deixar de lado o que nos faz mal
Partir
Com a certeza de um metro quadrado algures
Ir em busca do desconhecido
Não esquecer de onde viemos
Mas enterrar as mágoas e os desgostos
Lágrimas, dores, prantos, desgraças
Ansiar com o sítio para onde vamos
Ansiar com novas pessoas, novos amores
Custa seguir em frente,
E, no entanto, é tão necessário
Diz-se que águas paradas não movem moinhos
Um coração preso ao passado
Não tem como voltar a amar
 
Avança.
 
PedRodrigues

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Breve reflexão sobre a sociedade


Dou por mim a olhar, cada vez mais desconfiado, para o mundo que me rodeia. As pessoas parecem mais preocupadas em serem os outros, – sejam eles quem forem – que em serem elas mesmas. Estão mais preocupadas em viver as vidas dos outros, – sejam elas o que forem – que em viver a sua própria vida. Assusta-me de morte a forma como arranjam tempo para o fazer. A minha vida ocupa-me a tempo inteiro.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Astronautas


Então olhou para cima e sonhou apaixonar-se por um astronauta.
Alguém que pudesse escrever o seu nome na lua.
Dizem que as palavras escritas na superfície da lua permanecem intactas: não há vento, nem tempo, que as apague.
Talvez fosse esse o seu verdadeiro objectivo: amar alguém que gravasse o seu nome em algum lugar só seu – onde mais ninguém fosse. Longe.
Alguém que gravasse o seu nome, e nem o tempo, ou o vento, o conseguissem apagar.

 

PedRodrigues