quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sem título, a caneta

Não tinha onde te escrever, 
a não ser
               nos limites destas páginas
a tinta permanente
A vida é uma máquina de fazer
passados. Avançamos por ela
como pilotos de carros de corrida,
fugindo ao tempo; a vida é mesmo 
assim e ninguém consegue parar
as imagens que se tornam borrões
de luz fina à nossa passagem

Não tinha como travar o avanço
do tempo; a pele estava a desfazer-se
em memórias de antigas carícias 
                                                  de amor
Sei lá eu o infortúnio das primeiras
chuvas; na água tudo se dissolve
até a tua imagem.
Não serei para sempre 
o tempo dos teus beijos

A vida encarregar-se-á de te fazer
passado. Não tenho braços que 
te façam minha para sempre - ou depois.

Serás memória, mesmo antes 
de me aperceber se foste minha
ao mesmo tempo que fui teu
Amor, meu amor.

Escrevi-te a tinta permanente 
só no caso do tempo se esquecer
que tudo o que é eterno 
não tem pressa de ser.



PedRodrigues

domingo, 16 de julho de 2017

Uma canção para um coração partido

Disseste-me adeus diz-se aos mortos, mas que querias que dissesse a não ser um adeus? Não tinha mais que dizer. Não que quisesse matar-te no meu coração, a tiro de revólver. Nada disso. Só queria que deixasses de doer por dentro. Que deixasses de ser essa memória que me atormenta nas noites de insónias. Não tinha mais que dizer. Não tinha como desligar a tua voz na minha cabeça a repetir o meu nome. Porque o pior das tempestades vem depois, quando tudo são destroços e nada parece pertencer ao seu lugar. O depois é incerto, como a letra de uma música que cantamos, sem acertarmos as palavras. Nada pertence. Nada encaixa. Mas acabamos por embalar na melodia e abanar a cabeça, gastando toda essa energia, toda essa força de lágrimas e ais. Não queria dizer-te adeus, mas tive de o fazer. Porque a canção, como tu, também acaba. A canção, como tu, também teve o seu tempo. Não queria matar-te no meu coração, juro. Apenas desligar-te um pouco. Um pouco; um pouco; um pouco. Apagar as tuas fotografias, o teu número de telemóvel, afogar-te em seis copos de um vinho de uma boa casta, uns copos de gim: queria que a tua memória acabasse por ficar dormente. Convidar-te a sair. Adeus, mesmo tendo vontade de dizer um até logo. A minha vontade era essa: soltar um adeus com o som de um até logo. Não sei como podemos amar tanto o que nos destrói. Mas também não me imagino a ser um marinheiro de mares calmos. Sempre me apaixonei pelas tempestades. Mesmo que o depois. Mesmo que depois… E a nossa música continua a tocar. Comigo aqui. Contigo algures pelo mundo. Espero que ainda saibas a letra. Eu continuo a cantá-la e a dançá-la entre os destroços de um coração partido. 


PedRodrigues

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caprichos do século XXI

Vivemos numa época de caprichos. O que hoje parece eterno, amanhã já está feito em ruínas. Parecemos andar ao sabor do vento, seguindo o caminho que ele decide, sem nos darmos conta dos danos que causamos aos outros. Num mundo cada vez mais preso à imagem, as pessoas começam a perder conta do que cada uma guarda para lá dos rótulos. No outro dia, ouvia uma história de uma rapariga que tinha acabado de ser trocada pelo rapaz com quem namorava. Vivemos numa época de relações fast food. É triste dizê-lo, mas é verdade. Continuamos a buscar a beleza física, os corpos de ginásio, os bronzes de mil dias de verão, os cabelos bem arranjados, e as roupas elegantes: num mundo de fotocópias, não ousamos procurar o original. Vamos na corrente, seguindo o vento, caindo sempre no mesmo erro. Penso ter sido Einstein que disse “loucura é repetir a mesma acção, vezes sem conta, e esperar um resultado diferente”. Vivemos num mundo de loucos, mas não num mundo de loucura saudável: de amor pelas pequenas coisas, pelos pormenores, de amor pela vida, de vício por pessoas extraordinárias. Vivemos num mundo de loucos que cometem repetidamente o mesmo erro, chorando no final porque o desfecho não foi diferente. Vivemos num mundo de caprichos, repito: procuramos o brilho, como os corvos, mas não nos importamos em tentar distinguir se o brilho é de um diamante, ou de um pedaço de vidro. É triste. Preocupamo-nos com a imagem, esquecemos a essência. E consumimos hoje, para metermos de lado amanhã. Já ninguém se apaixona loucamente. Vivemos na era do desinteresse: nada prende. Talvez porque a beleza física seja uma característica fútil: desvanece com o tempo. Não falo do alto de um pedestal, porque a beleza, em qualquer forma me atrai, mas tento escavar até ao osso. Procurar as cidades perdidas que ninguém vê. Tenho o mau costume de me viciar em pessoas incríveis, que me prendam a elas como Saturno prende as suas luas. Isso sim, é bonito: o que não sabemos explicar e que nos prende por dentro, e nos faz pensar dia e noite naquela pessoa. Mais que a simples fachada que não podemos amar de olhos fechados. Num mundo de consumo imediato, e olhos gulosos: pára um pouco, fecha os olhos. Ousa ser original. 


PedRodrigues

terça-feira, 4 de julho de 2017

Janela


É terça-feira, e Julho entrou a correr pela vida adentro, como um convidado que, apesar de esperado, entra pela porta de rompante, deixando a casa em pé de guerra. 
É de noite, e nem os grilos cantam, nem as pessoas conversam na rua. Apenas um avião se sobrepõe ao tecto de minha casa, levando consigo o descanso do silêncio, obrigando-me a olhar para a parede vazia à minha frente. Por mim passa a ideia de te ver à janela, a olhar a rua, perguntando-te por que razão tentamos dar ordem às coisas: sentidos às estradas, nomes aos lugares, coordenadas às estrelas. 
És a coisa mais bonita que já vi, penso. O teu caos ensinou-te a dançar, e tu não te inibiste. Danças sozinha uma música que só tu pareces ouvir e, segundo Nietzsche, talvez todos os outros te julguem maluca. Mas eu não. Eu dou por mim a pensar que talvez seja no teu ouvido que as aves treinam o seu canto. Talvez a tua voz ecoe o som do mar, como um velho búzio deixado a rolar pelas ondas. Os teus olhos lembram-me constelações, cujo nome esqueci porque o espaço é demasiado grande para ser decorado. E é nas ruas do teu corpo que eu procuro me perder, porque não mereces que imponha sentidos, que limite as tuas fronteiras. 
A vida passa por nós como um feixe de luz.
E é por isso que te procuro, pelos dias todos, dos meses todos, de todos os anos da minha vida. Penso em ti sempre que olho este espaço em branco, hipnótico, a pedir que invente frases com o teu nome, que o preencha com as tuas cores. Mas o mar não tem limite, já me diziam antigamente. E tu também não, meu amor. Por isso, onde quer que estejas, acusa-te. É Julho, as ruas estão vazias, o silêncio é teu, a minha janela também. 

Até já, amor
meu amor.


Pedro